Um botafoguense caipira

junho 4, 2013 -

Algo que há tempos me encafifa é o que teria levado meu sobrinho de 11 anos, uma criança do interior paulista, a torcer para um time carioca – no caso, o Botafogo.

Já ouvi o pequeno Yan falar em nomes de jogadores gringos do clube, como Loco Abreu e Seedorf. Presenciei, mais de uma vez, sua felicidade ao ganhar de presente uma camisa do alvinegro de alguém recém-chegado de viagem. E enfim, pude observá-lo orgulhoso vestindo a estrela solitária no peito.

Só isso, e tudo isso, foi o suficiente para decidir investigar a origem dessa preferência nada comum.

– Olha o que sua irmã me pergunta. Por que eu torço pro Botafogo?, disse ele ao seu pai, depois do questionamento da tia.

Pensei na hora que o pequeno me zombava, mas não liguei, e fui em frente em busca de uma explicação lógica.

Foi aí que Yan começou a falar, e então descobri que além dele colecionar canecas, copos, canetas, e o que mais houver com o emblema do clube carioca, sua escolha está muito mais ligada a um gênio que fez história no Botafogo, morto há 30 anos, aos 49, do que a craques da atualidade.

– Ah, tia, o vô me contou a história do Garrincha, e eu gostei. Ele foi um dos melhores jogadores do Brasil. Ele era melhor que o Pelé, o vô falava. E ele bebia demais também.

Assim como o craque carioca, seu Gilberto, meu pai e avô do pequeno Yan, não está mais nessa terra. Descubro agora que sua influência sobre os netos foi tanta a ponto de deixar entre nós um pequeno botafoguense paulista, cativado pela trajetória do ídolo alvinegro contada pela sua boca.

Em homenagem a seu Gilberto e ao craque das pernas tortas deixo aqui um trecho de uma crônica esportiva de 1958, de Nelson Rodrigues, para agora explicar um pouco desse gênio do nosso futebol: “Garrincha não pensa. Tudo nele se resolve pelo instinto, pelo jato puro e irresistível do instinto. E, por isso mesmo, chega sempre antes, sempre na frente, porque jamais o raciocínio do adversário terá a velocidade genial do seu instinto”.

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Meu pai

junho 4, 2013 -

Hoje vou falar da vida de um torcedor, na tentativa de aplacar a dor da perda, tão forte que em alguns momentos chega a dar desespero e faz faltar o ar.

Gilberto Gildo Delalibera, santista, meu pai. Nasceu em setembro de 1951 e nos deixou no último dia 9, depois de se submeter a uma cirurgia em busca da vida.

Sim, um homem de coragem até o último instante.
Intenso, controverso, generoso – seu Gilberto não desperdiçou um dia sequer debaixo do sol. Teve urgência de viver, e não de qualquer jeito, mas do seu jeito.

O mais velho de três filhos, trabalhou ao lado do pai, mas logo partiu na intenção de escrever sua própria história. Dirigiu caminhão, foi vendedor de máquinas agrícolas, empresário, produtor de limão – nunca teve medo de se reinventar.

Já na casa dos 50 prestou concurso, e recomeçou a vida como motorista de ônibus escolar. Também voltou a estudar. Formou-se em história, e agora cursava sua segunda faculdade, de pedagogia.

Tudo isso, junto com a família que formou e os amigos que conquistou, era motivo de orgulho para seu Gilberto.

Curioso: a gana que nutria pela vida se tornava mais branda quando o assunto era futebol. Reprovava discussões acaloradas, e era cordial com torcedores rivais.
“Fala, corinthiano… Então a gente vai se encontrar na final…”, falou, mansamente, em sua última conversa com o genro, na semana que antecedeu o primeiro jogo entre Santos e Corinthias pela final do Paulistão.

Imagino ele agora com sua calma de torcedor lá no céu. Não queria que partisse assim tão cedo.
A ordem da vida se inverteu.

Adoráveis doidos

maio 28, 2013 -

Foi no sacolejo de um ônibus da Circular Santa Luzia que o casal José Valderli – Derli para os familiares, e Zé do Táxi para clientes e amigos – e Rosana Maria, a Rô, se conheceram. Ele era cobrador; ela, passageira. Entre um olhar e outro, certo dia engataram a primeira conversa de muitas que surgiriam pelo caminho.
A simpática Rô pegava a linha do shopping todos os dias para ir ao trabalho, a mesma na qual o futuro Zé do Táxi era cobrador. De parada em parada, o sentimento entre eles cresceu a ponto de chegar o dia em que concluíram ser preciso ultrapassar os limites da Circular. O casal então deu partida a um namoro que, não demorou, virou noivado, e, enfim, casamento.
No sábado à noite, Rô comemorou 42 anos de idade, dos quais 20 ao lado de Derli. Muita coisa mudou na rota do casal desde aquela primeira viagem no interior do calorento circular.
Eles prepararam uma animada festa para a família e os amigos em sua aconchegante casa enfeitada por centenas de orquídeas, com direito ao serviço de um churrasqueiro de um tradicional restaurante do centro da cidade.
Rô passou o dia no preparo de sua famosa maionese e de outras delícias para acompanhar o churrasco, e Zé ocupado com o horário de entrega do chopp, a montagem do som, e outros detalhes do cenário da festa. Providenciou até um microfone, que lhe serviria horas mais tarde para fazer suas declarações rasgadas à amada Rô.
Ele, que não gosta da palavra empreendedorismo, e acredita apenas em trabalho duro, não esconde o prazer de poder proporcionar momentos como esse a quem gosta. Mesmo prazer sentido por Rô ao perceber que alguém saboreia feliz um prato que ela preparou.
“Você é doida demais…”, cantarolou Zé, pouco antes do início dos parabéns, com o microfone em punho, dirigindo-se a Rô. Pega de surpresa, ela não deixou por menos – “sou doida mesmo, porque me casei com um doido igual a você”.
Doidos, não sei, mas adoráveis, sem dúvida.
Obrigada Zé, pela sua amizade.

A doçura e a rudeza

abril 4, 2013 -

Seu Antonio Delalibera era uma espécie de avô transgressor, e descobri que eu amava isso
Cresci aprendendo a me equilibrar na carroceria de sua D-10. Me agarrava onde dava, enquanto a caminhonete soltava sua fumaça movida a diesel pelas ruas de Catanduva
Às vezes era uma entrega de sacas de arroz, outras uma ida até o Mercadão para comprar fumo
À noite, quando seu Antonio fin…almente parava para descansar e esticava as pernas sobre uma cadeira, estava eu lá sentada no sofá ao lado dele, me esforçando para respirar em meio as baforadas de seu cigarro de palha
O peito ardia, mas não arredava o pé. Mais importante era ficar perto de meu avô, que ora era doce, ora rude, mas me fascinava o tempo todo
Em datas como Natal ou Dia das Crianças, nada de presentear com brinquedos da moda. Na verdade, nem artigos de gênero algum
Caminhando devagar, normalmente depois de sair do banho e pentear os cabelos grisalhos para trás, ele vinha em direção aos netos cheirando a sabonete, colocava a mão direita no bolso e de lá tirava uma nota para cada, satisfeito
Meu presente sempre tinha valor inferior ao do meu irmão, e para isso seu Antonio dava uma explicação – era proporcional à idade
Não entrarei em detalhes aqui sobre a importância para mim dele criar porcos, galinhas e até uma vaca no fundo do quintal, mas não posso fechar os olhos para a lembrança de quando surgiu um bode amarrado a uma corda na entrada da garagem, onde ficou por alguns dias
Lembro que tiramos foto, eu sorridente ao lado do bicho. Até hoje não sei ao certo qual seu destino. O mais provável é que tenha ido para a panela, algo ocultado pelos adultos na época
A dedicação para encontrar uma boa leitoa caipira para as festas de final do ano era outra peculiaridade de seu Antonio, e o resultado do trabalho podia ser conferido toda vez que minha avó cruzava a porta da cozinha levando a carne assada para a grande mesa que recebia a família nos almoços de domingo
Visitantes mais desavisados ou mesmo frequentadores assíduos que não se acostumavam com a rusticidade de meu avô por vezes se espantavam diante do deleite
“Olha como faz o seu avô”, me dizia ele, enquanto destrinchava um pedaço de leitoa com as mãos
Também havia os domingos em que seu sangue italiano aflorava depois de alguns copos de vinho, e emocionado com a família reunida, ele chorava como criança. Minha avó fechava a cara, constrangida por causa das visitas. Ele não se incomodava. As crianças tampouco. Estavam acostumadas com o jeito de gostar de seu Antonio
Mesmo em seus últimos anos de vida, pouco antes de a doença o derrubar, o espírito transgressor não dava trégua. Era Dia dos Pais, e ele foi flagrado soltando fogos com uma bisneta. Não se importou com os puxões de orelha
Seu Antonio partiu para sempre em agosto do ano passado. Sem ele, muita coisa perdeu o sentido. A grande mesa ficou enorme, e ninguém mais ousou reunir a família em torno dela num almoço de domingo

Nossa vitrola

março 28, 2013 -

Para pensar na vida, ele escolhe um velho disco do Vinicius

Senta na ponta direita do sofá com sua postura ereta e cruza as pernas, majestoso

É acompanhado por um copo de cerveja, e em alguns momentos sua voz se mistura à do poetinha – essa, embalada pelo uísque

Para celebrar a vida, ele prefere os versos tristes de Nelson Cavaquinho

Dança no meio da sala, e me olha no fundo dos olhos para lembrar que quer as flores em vida, o carinho, a mão amiga

Para falar de amor, Chico

Às vezes dançamos abraçados e cantamos baixinho

Às vezes me emociono, e choro

Às vezes deito a cabeça sobre seu ombro e fecho os olhos

Um dia ele me disse que já nasceu velho

Espanto

Sei que ainda não cresci – sou uma menina que tenta esconder os cabelos brancos

A descoberta do Sunday

março 19, 2013 -
(Um texto que fiz sobre minha avó e nossas histórias)

Minhas singelas aventuras gustativas ao lado de minha avó, dona Aurora, quando menina, eram tão boas quanto conseguir autorização para brincar na terra e poder se sujar dos pés à cabeça
Nas férias, costumávamos pegar um circular rumo ao centro da cidade com destino ao supermercado Curitiba, que abrigava o que se pode ch…amar de um oásis para aquela dupla sedenta
Com seus altos balcões vermelhos em fórmica, a lanchonete do Curitiba oferecia lindas taças de sorvete coberto com muita calda e castanha triturada – era o Sunday, que eu começava a desbravar
Entre alguns pingos de sorvete na roupa e melado nos dedos, com minha avó de sombrinha em punho para nos proteger do sol até a parada de ônibus, o regresso era uma satisfação só
Certo dia, o deleite foi tanto que caí em sono profundo boa parte do caminho dentro do circular, a ponto de ficar surpresa ao ser cutucada por minha avó, informando a chegada ao destino
Mas minha viagem pelo sentido do paladar ao lado de dona Aurora durante as férias não se limitava ao que era doce
Adorava sua galinha caipira com polenta, e não foram poucas as incursões pelo quintal, em busca de uma vítima que nos servisse de refeição
Depois de sentenciado, o bicho ia para uma bacia de alumínio a fim de ser depenado, e nessa hora minha ajuda era bem-vinda
Com uma chaleira cheia de água fervente, aos poucos a nonna despejava o líquido em nosso futuro prato
Depois, eu ficava à beira do fogão à lenha, à espera dos miúdos que ela colocaria já cozidos em um pires para os netos saborearem
Meu irmão, o mais velho, tinha a preferência, e sempre ficava com o coração
Também me sentia útil quando ajudava dona Aurora no preparo do nhoque, e ao mesmo tempo brincava cortando as tiras de massa em quadradinhos que depois iriam à panela
Diferente do bife de minha mãe, o preparado pela nonna tinha uma boa dose de pimenta do reino, e isso também me atraía
Ainda hoje, admiro minha avó pelo prazer que ela transmite diante de um bom prato, e a curiosidade que mantém viva de conhecer novos sabores
No último domingo, depois de um almoço regado a suco de abacaxi com hortelã, avó e neta se depararam novamente diante de um importante dilema: uma taça de creme de papaia ou um sorvete para refrescar a tarde de calor beirando o insupórtável ?
Depois de uma pausa, o eleito foi o creme de papaia, mas sem licor de cassis. Reflexo de uma nova realidade – dona Aurora agora tem diabetes, e a neta está um pouco acima do peso
Ficamos em silêncio enquanto saboreávamos a sobremesa, e por um momento voltei ao balcão da lanchonete do supermercado Curitiba
Nos olhamos, e concluímos, ao mesmo tempo – “está muito bom, né”

 
 

Para Liza

março 19, 2013 -

A porta abriu, e vi lá dentro uma leoa ao lado da janela
A cria repousava sobre seu peito farto, transformado
O aperto doído da espera, que ela carregou há meses, foi embora
Na verdade, parece até que nunca existiu
Agora, aquele peito explode de uma alegria silenciosa
Ela ampara a cria certeira – sabe que o novo ser depende apenas de sua fartura
Fartura de amor, de alimento, maternidade
Nunca tinha encontrado minha amiga assim mansa, serena
Ela suspendeu a pequena e frágil criatura que dormia em seu peito, e perguntou se eu queria segurar sua cria
Recuei – o território era dela
Theo, com a juba preta dominada pelo sono profundo, nem percebeu tamanha covardia
Olhei para o soro espetando o braço da leoa, e pensei nas supostas agruras da pós-cirurgia
Ela sorriu, generosa
E me fez conhecer uma nova amiga, que agora é mãe
Liza