Archive for the ‘Na rua’ Category

Antônios Pescadores

maio 27, 2009 -

Antônio Francisco Ferreira, 53, carpinteiro, e Antônio Carvalho, 50, ajudante, são dois pescadores do trecho urbano do rio Sorocaba. Eles ficam ao lado do barulho e da fumaça dos carros que trafegam pela marginal. Desempregados, sentam-se horas à beira do rio, e é raro voltarem de mãos vazias. Em casa, comem o peixe fritinho, e quando a pesca é boa tem até para a vizinhança. “A gente pega de tudo:  traíra, corimba, bagre”, fala Carvalho. “Sempre comi e nunca fiquei doente.”

Mas na última quinta-feira à tarde, a situação deles, que já não é fácil, ficou mais complicada. Resolveram ir  até um córrego próximo, e, sem querer, Carvalho pescou um cágado, aquele réptil que parece uma tartaruga e gosta de água. O bicho mordeu a isca e ficou enroscado no anzol. Quando tentava tirar, um PM viu a cena, acionou a polícia ambiental, que o orientou a enquadrá-los.

Eu e o repórter fotográfico Epitácio Pessoa passávamos na hora e por causa da movimentação decidimos parar. Desci do carro depressa e vi a dulpa de aparência inofensiva, expressões sofridas, Carvalho com seu chapéu, o material de pesca, garrafinha de aguardente do lado. No chão, o tal cágado. Surreal.

Ele me encarou e não teve receio: “Pelo seu olhar dá para perceber que a senhora é uma pessoa humana”, disse. “Por acaso a senhora acha que vim qui com intenção de maltratar esse bicho? É muita humilhação.”

A essa altura umas três viaturas estavam ao redor, uma da Guarda Municipal e duas da Polícia Militar. Não teve jeito. Os dois foram levados à delegacia, ou melhor, os três, porque o cágado foi junto. Entrei no carro rumo ao jornal e senti o coração  apertado quando passamos pela dupla seguindo o PM, que segurava o cágado.

Não resisti. No outro dia cedo liguei para a casa de Ferreira. “Ah, menina, tomamos um chá de cadeira lá”, contou. “Mas até que nos trataram bem. Deram café e tudo.” O bicho, explicou, foi colocado numa piscininha que tinha no local. “Ele ficou lá nadando.”

Agora, o que preocupa os amigos é a multa por crime ambiental que lhes foi aplicada, de cerca de R$ 530. “A gente não vai pagar, não tem como.” O carpinteiro está desempregado há cerca de dois anos, e tem muitas bocas para dar de comer, incluindo filhos e netos. O único conforto é saber que, generoso, o rio Sorocaba continua lá. 

PS 1 – O biólogo Welber Smith, coordenador do Grupo de Estudos do rio Sorocaba, disse que foram feitos estudos que constataram baixos índices de metais pesados em peixes deste trecho do rio Sorocaba. Ele diz que algumas bactérias foram encontradas no corpo dos peixes por causa da poluição, mas que se for bem frito ou bem cozido, não há problema. O perigo, diz, é a ingestão desse peixe cru, o que pode causar desde uma diarréia até hepatite (sushi nem pensar). Outra prática que ele desaconselha totalmente, é preparar e comer o peixe à beira do rio, costume de alguns pescadores daqui.

PS 2 – Ele explicou que a presença de cágados em córregos é comum. São animais que se adaptaram muito bem ao ambiente urbano e resistentes à poluição. Atraídos pelo esgoto, eles comem pequenos bichos, como girinos.

maio 22, 2009 -

Nesta quinta ouvi um relato sobre um catador de recicláveis que passou mal, foi hospitalizado e descobriu que está desnutrido. Lembrei na hora de dona Laurentina, que conheci quando ela voltava de uma manhã de trabalho e empurrava seu carrinho lotado numa rua de terra. Esse é o texto sobre ela, editado para o blog.

 

Aos 64, ela tem um sonho

Ela conheceu o que é trabalho ainda criança, em plantações de tomate e feijão. Agora, aos 64, Laurentina de Andrade cata materiais recicláveis na cidade para ajudar no orçamento da família, e tem um sonho: a aposentadoria.

Sua jornada começa cedo. Sai de casa às 5h. No escuro, passa por trechos sem asfalto com terrenos baldios até chegar à avenida principal do bairro onde mora. No estômago, tem apenas um café, e só vai se alimentar quando retornar, por volta das 11h. “Aí como um pão, alguma coisa assim. Depois separo as coisas que peguei. Só bem mais tarde eu faço almoço.”

Para suportar o peso do carrinho, corta caminho para não pegar subidas. Mesmo assim, às vezes a pressão cai. “Aí sou obrigada a parar um pouco, sento na calçada”. Com a venda de papelão, ferro, plástico, latinhas, Laurentina consegue tirar em torno de R$ 50 por semana. “Mas já esteve bem melhor. Os preços caíram muito.”

Sua maior queixa é com o descaso. “As pessoas não colaboram, tem gente que mistura comida no meio do material. É difícil ficar procurando, viu”.

Ela diz que tem um companheiro, com quem mora há 35 anos. Joaquim tem 74 e não pode ajudá-la porque está com a saúde debilitada. Não que a catadora esteja com a sua em dia. Tem anemia, artrite, além de problema na tireóide. “Fazer o que? É melhor trabalhar assim, do que sair pedindo.”

Laurentina e sua força (Foto: Teylor Soares)

Laurentina e sua força (Foto: Teylor Soares)

Incapazes?

maio 8, 2009 -

Difícil acreditar, mas acontece. Hj conheci dois velhinhos, um de 83 e outro de 90, que tiveram a dignidade desrespeitada por uma vizinha, que tenta impedir que eles batam papo na portaria do prédio onde moram, de classe média.

Arrisquei e fui  até o local na tentativa de conversar com ambos. Sem pensar duas vezes, o porteiro preferiu chamar a enteada de um deles, o que me deixou na hora com uma leve irritação, que não consegui esconder. “Mas ele não está lúcido? É doente? Não responde por si?”, questionei o homem. Ela me deixou subir e pude confirmar que não era o caso.

Curioso como é comum julgar alguém incapaz de tomar uma decisão levando em conta apenas a idade. Ou será que sou eu a equivocada? 

Uma casa para Rute

abril 29, 2009 -

Hoje foi a quarta vez nos últimos dez anos que Rute Batista Ferraz, 55, preencheu um cadastro na esperança de entrar num programa habitacional. Ela acordou cedo e foi para um dos pontos onde a Prefeitura de Votorantim realiza o censo que levantará o déficit de moradia da cidade, que servirá de base para o “Minha casa, minha vida”, por meio do qual o presidente Lula prometeu construir um milhão de casas.

Cheia de esperanças, ela sorria enquanto entregava os documentos para a atendente, numa tenda montada na praça de uma quadra. A abordei na saída e descobri que Rute cria três netos – Vitor, de 5, Karen, de 9, e Keren, de 12, e que não é raro depender da sorte para conseguir pagar as contas no fim do mês. “Ah, mocça, minha filha foi embora”, explica, encabulada. “Fiquei com a guarda deles.”

Carteira assinada, ela não tem. Até o fim do ano passado, contava com a ajuda do Bolsa Família, mas o benefício, de R$ 60 mensais, foi cortado. Agora, tem garantido apenas um vale-alimentação que recebe todo mês do ex-marido, no valor de R$ 168. Ela faz bicos – pequenos consertos como costureira e crochê. Mas só com o aluguel se vão R$ 200. “Estou confiante em Deus. É uma promessa.”

No momento, Rute procura outro imóvel para alugar. O proprietário da casa onde mora quer colocar tudo abaixo e erguer no terreno uma loja de materiais de construção. “Está difícil achar outra casa no valor que eu pago. É tudo mais alto.”

Rute está enquadrada na faixa de famílias de baixa renda, entre 0 e 3 salários mínimos, considerada prioritária para o programa do governo federal. O presidente da COHAP (Companhia Municipal de Habitação Popular), de Votorantim, Jaime Augusto Rangel Filho, disse que a autarquia possui uma área onde é possível construir 600 unidades populares, e que deve ser destinada a esse fim. Tão otimista quanto Rute, ele acredita que haverá interesse de empreendedores.

Em Votorantim, o déficit habitacional é estimado em 8,5 mil unidades, segundo dados do IBGE. A enorme procura para o cadastramento surpreendeu a administração municipal, que havia confeccionado inicialmente 10 mil formulários para o censo. Precisou de outros 10 mil. Na solenidade de assinatura do termo de adesão entre prefeitura e Caixa, autoridades falaram na construção de mil moradias.

Espera (Foto: Teylor Soares)

Espera (Foto: Teylor Soares)

Normal assim

abril 26, 2009 -

 

Um olho no truco e o outro em mim: esse é o seu Chiquitano (Foto: Epitácio Pessoa)

Um olho no truco e o outro em mim: esse é o seu Chiquitano (Foto: Epitácio Pessoa)

Nada de celular, I-pod, computador. Ele é do tempo da vida simples. O  aposentado José Chiquitano Filho passou boa parte de sua história como carpinteiro da Estrada de Ferro Sorocabana. Agora, aos 95, não abre mão da companhia dos amigos em torno de uma partida de truco, e fala que ainda tem disposição para limpar o quintal de casa, onde mora com filho, nora, e dois netos.

Chiquitano usa bengala e chapéu, além de manter um farto bigode e a barba bem feita, o que o destaca entre o grupo que freqüenta a Praça Dona Olinda de Castro Afonso, a Praça do Truco, na Vila Progresso. “Sou o número 1 aqui, quando cheguei no bairro só tinha umas dez casas”, fala, sem esconder a satisfação.

Contrariando as estatísticas, ficou viúvo há 10 anos. A companheira, dona Berta, morreu a cinco dias de completar 80. Tiveram oito filhos (seis  vivos), dez netos e seis bisnetos. 

O carteado acontece numa tarde cheia de sol, protegido sob a sombra de uma árvore. Enquanto conversa, os olhinhos azuis dificilmente se desviam do baralho. E a saúde? “Semana passada fiz exame do coração e da urina, deu tudo normal.”

O aposentado só não está 100% por causa das pernas, um pouco fracas.  Ainda assim, ele nem pensa em se entregar à idade. Todos os dias após o almoço caminha três quarteirões até a Praça do Truco, de onde retorna apenas no fim da tarde, também a pé. “Como um pouco menos do que antigamente. E também gosto muito de fruta”, revela, sobre sua disposição que dá inveja.

PS – Recebi um e-mail que diz que a história de seu Chiquitano tá “mto normal”. Para ficar de acordo tomei a liberdadede trocar o título, de “Simples assim”, para “Normal assim”. Prometo que o dia que cruzar com algum velhinho de 95 anos que toma viagra  e tem 4 mulheres, ou que é atleta, corre 10km por dia, publico aqui. Bjs

Sem tempo de chorar as pitangas

abril 23, 2009 -

 

Primeiro turno: na porta do PAT com senha 870 para concorrer a vaga de impressor (Fotos: Teylor Soares)

Primeiro turno: na porta do PAT com senha 870 para concorrer a vaga de impressor (Fotos: Teylor Soares)

Quando fui ontem de manhã até a porta do PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador), em Sorocaba, imaginei que fosse encontrar mais uma história triste – gente de cabeça e auto-estima baixas, sem registro em carteira há anos. Doce engano. Dei de cara com João Carlos Vieira dos Santos, 38 anos. De tão inspiradora, sua história foi publicada hoje no BOM DIA em Sorocaba.

Desempregado há seis meses, ele não fica choramingando pelos cantos, nem espera qualquer espécie de ajuda de programas sociais. “Minha ex-mulher tem essa mania, vai buscar cesta básica numa igreja. Eu morro de vergonha disso. Corro atrás.”

É verdade. João Carlos aposta mesmo é em sua capacidade para ganhar o pão de cada dia. Há mais ou menos um mês, viu na TV uma reportagem sobre o serviço de “marido de aluguel”, achou interessante, e decidiu arriscar: colocou anúncio em jornal se oferecendo para fazer consertos domésticos. “Consertamos quase tudo”, avisa seu cartão.

E o desempregado não reclama desse novo bico, pelo contrário, o compara até a uma “terapia”. A maioria dos clientes é mulher, mas ele também atende imobiliárias. Apenas semana passada, com três trabalhos, recebeu cerca de R$ 200. “Já deu para pagar a pensão.” João Carlos é pai de duas meninas, uma de 10 e outra de 11 anos.

Ele tem larga experiência como impressor de off-set. Foi demitido numa onda de cortes. Conta que a primeira vez que pisou numa gráfica foi aos 9 anos, e começou como ajudante. Daquela função, mantém o hábito de usar um jaleco azul, que veste quando vai prestar seus serviços.

Também não abre mão da companhia de seu velho Fusca, onde carrega, além de ferramentas, produtos do apiário que tem em sociedade com o irmão, em Iperó. “Quando saio, já aproveito para oferecer mel, sabonete, própolis, pomada, levo tudo no carro.”

Ontem, ele ainda achou tempo para concorrer a uma vaga de impressor. Estava na fila do PAT com a senha número 870. “Quero ver como é a vaga, onde é a empresa, e vou atrás também”, planeja. “Quem sabe eu dou sorte e pego um turno que dá para conciliar.”

Se depender do endereço, a figura vai longe: sua casa fica na rua do Amor, no bairro Jardim Santa Fé. Quem se interessar pelos produtos ou serviços de João Carlos deve ligar para (15) 9756-5427.

Aqui, de uniforme, prepara ferramentas e produtos de apiário para carregar em seu Fusca

Aqui, de uniforme: ferramentas e produtos de apiário vão junto no Fusca

A fé de João

abril 19, 2009 -
João Batista: ele não estava lá por acaso (Fotos: Assis Cavalcante)

João Batista: ele não estava lá por acaso (Fotos: Assis Cavalcante)

Ainda não tinha amanhecido quando uma moto  se chocou contra ele, a hora que chegava à capela da Penha, na serra de São Francisco, em Votorantim. Eram cerca de 5h40. Caído na estrada de terra, rodeado por curiosos, vi que estava com um corte profundo na perna, mas ele  recusou qualquer ajuda. 

Segui até onde os romeiros se concentravam, intrigada. A cena não me saía da cabeça – o cobertor jogado num dos ombros, a expressão sofrida.

Depois de um tempo, os fiéis já acompanhavam a missa campal e eu procurava um canto para tomar um café preto enquanto esperava o repórter fotográfico Assis Cavalcante. 

Vi que ele estava por perto e me aproximei aos poucos. Logo, veio a impressão que estava ao lado de um católico fervoroso: acompanhava os ritos da cerimônia, fechava os olhos, apontava para o céu.

O cobertor continuava lá. Quando me viu com o copo na mão perguntou se eu queria um espaço ao lado dele. Coincidência ou não, seu nome é João Batista. Batizado João Batista de Araújo, tem 50 anos e nasceu no interior do Paraná. Morou em Curitiba, e veio ainda moço para Votorantim a procura de emprego.

As mãos não enganam. A maior parte da vida foi lavrador. Teve cinco filhos. Diz que três morreram. É separadado da mulher há 10 anos. E o mais curioso: morou sete anos numa casa que fica bem ao lado da capela da Penha, construída em 1724. Quando pergunto há quanto tempo se mudou do imóvel, não sabe precisar. 

Enquanto conversamos, pelos olhares ao redor, parece mesmo que João é conhecido na área. “Trouxe esse cobertor aqui para me cobrir, mas não precisei”, me informa. Ele pára de falar e se concentra na missa por uns instantes. A certa altura resolve contar o acidente.

“Eu vi quando você estava caído”, aviso. “Não quis saber de ir pro hospital, né?”. “Não, não… Deus vai me curar”, diz, e eleva os braços.

 Quero saber se ele tem dores e a primeira resposta é não. Mas ele pensa melhor e mostra o pulso esquerdo inchado, e confessa: “aqui dói”. João conversa em voz alta e percebo que incomodamos alguns fiéis.

“Primeira carta do apóstolo João”, anuncia o padre pelo microfone. Ele me cutuca: “olha, sou eu”, diz, e solta uma risada. Eu não resisto, e o acompanho na viagem, sorrindo também.

Fiéis dormem enquanto esperam missa campal, depois de caminhar 21km

Depois de 21km a pé, cansaço