Archive for the ‘Infância’ Category

Vic-Vaporub e outras crendices

março 19, 2013 -
Dona Merce e suas crenças medicinais sempre me colocou em circunstâncias não muito confortáveis, principalmente na infância. Eu, pobre criança, nada tinha a fazer a não ser seguir o que diziam os mais velhos, no caso, minha mãe.

A situação mais constrangedora, sem dúvida, era quando a gripe me pegava de jeito e ela sacava o inseparável potinho de Vick-Vaporub.

Febril, com tosse, nariz congestionado. Lá vinha dona Merce antes de me colocar na cama espalhar Vick por todo o peito, pescoço, e enfiar o produto nas narinas da filha. Para dar o toque final, ela enrolava um lenço xadrez em meu pescoço. Era para não tomar friagem.

Aquele ritual me mostrava que poderia haver coisas mais chatas que os sintomas de uma simples gripe.

Ainda assim, me submetia a ele sem reclamar. Não tinha opção, na verdade. Dona Merce era tão segura de suas crenças que não dava brecha para alguém retrucar.

Outra receita infalível guardada em sua manga era o velho copo com água morna. Uma beleza contra má digestão e gases. O líquido transparente no copo de vidro, mais para o quente que para o morno, como ela antes prometera, é algo difícil de esquecer.

Naquela época, rejeitá-lo era uma atitide em vão. A única saída era contar até três, prender a respiração e tomar as goladas de água quente.

Até hoje, vira e mexe dona Merce reaparece com alguma de suas manias milagrosas. Dias atrás, ela sugeriu que eu passasse uma camada de Vick numa espinha indesejada.

Não sei se ela aplica essas crenças em causa própria. Sinceramente, nunca a vi virar um copo de água morna ou desfilar pela casa com um lenço cheio de Vick-Vaporub preso ao pescoço.
Mulher sábia, dona Merce.

 
 

A mais bonita

junho 15, 2009 -

Domingo à noite, família reunida em torno da mesa. Sopa de capeletti para combinar com o frio. Parmesão ralado, pão francês, vinho tinto seco. Foi assim que cheguei aos 35. Bem melhor do que tinha programado durante todo o mês de maio – até semana retrasada, era escalada para trabalhar no plantão do feriado de Corpus Christi.

Agora, chego à idade nova sem trabalho, relacionamento, filhos, ou grandes histórias para contar. Talvez o lado bom seja a possibilidade de o novo entrar.

Minha avó sentada numa das pontas da mesa, a certa altura o assunto gira em torno de tia Isaura, casada com um mulçumano. Tio Abdo criou dois filhos com seu box no mercado municipal – Jamil, médico, e Jamila, jornalista. Eu era menina e quando ele aparecia com seu bigode farto e careca lustrosa tudo ficava perfeito, no seu devido lugar.

– Essa é a menina mais bonita da cidade. Pode procurar que não vai achar igual – repetia sempre, ao me ver. Eu acreditava no discurso de tio Abdo, e sabia de cor.

Descobri que nos últimos tempos dificilmente seu velho Fusca sai da garagem, e que as meninas mais bonitas são minhas sobrinhas.

A arte de Orígenes

maio 10, 2009 -

Era uma pequena banguela de 7 anos quando minha mãe resolveu me matricular num curso de artes. As aulas eram pela manhã, num galpão com longas bancadas de madeira, e cheiro de tinta guache e giz de cera no ar. Lá, eu não via o tempo passar, debruçada sobre minhas pinturas em folhas de sulfite.

O professor se chamava Orígenes, nome que soava como um enigma para mim. Graças àquele curso, dois momentos mágicos marcaram minha infância. 

Homem alto e esguio, de bigode e voz grave, Orígenes um dia levou a turma para visitar uma exposição de telas a poucos metros do curso. Aniversariante do dia, pude andar ao lado dele, de mão dada, sem precisar encarar qualquer disputa com os colegas. Lembro que nunca tinha me achado tão importante.   

Em outra ocasião, desenhava distraída quando minha mãe, grávida, apareceu de surpresa. Ela vestia um conjunto de calça e bata de algodão, e estava sorridente como sempre, com seus cabelos mais curtos e o barrigão à espera de Vinícius. Diante das outras crianças, fiquei orgulhosa por aquela mãe ser a minha.

Cadê a minha Ceci?

maio 1, 2009 -

Enquanto corria hj de manhã comecei a recordar que demorei um pouco mais do que as outras crianças da minha idade para ganhar a primeira bicicleta. E quando ela veio, não foi uma Ceci, igual o modelo das minhas amigas, e sim uma tal de “Brandani Cross”, que meu próprio pai tinha escolhido na loja, e que mais parecia um tanque de guerra com seu banco gigante e um sistema de amortecedor que eu nem sabia qual a serventia. Isso deve fazer quase 25 anos.

Seria uma coisa besta, mas que se transformou num enorme sofrimento e frustração na época, por causa da ditaura do cosumismo. Meu desejo pela tal Ceci era tanto, que parecia que a bicicleta era algo com vida pópria, e, me lembro, foi até tema de uma redação. Talvez por isso hj meus desejos não incluam bens materiais. Também não tenho carteira de motorista, tampouco sei distinguir modelos de carros.

Por via das dúvidas, se um dia for mãe, vou consultar meu filho antes de lhe comprar a primeira bicicleta…