Archive for the ‘Alagoas’ Category

Feira do Rato: quase despedida

abril 3, 2009 -
Movimentação de ambulantes entorno dos trilhos, na Feira do Rato, em Maceió. A foto é de Ailton Cruz/O Jornal

Movimentação de ambulantes entorno dos trilhos, na Feira do Rato, em Maceió. A foto é de Ailton Cruz/O Jornal

 Entre os ambulantes que conversei na feira que fica à beira dos trilhos do trem – Feira do Rato, ou do Passarinho -, no centro de Maceió, Josuel, ou “O Fenômeno do Reggae”, como gosta de ser identificado, foi o único que por pouco não flerta com a inconveniência. “Depois eu vou conferir o seu site”, me alerta, após nossa conversa.

Quando já ouvia um colega seu, Josuel mais uma vez está do meu lado. “Olha, coloca essa foto aqui no seu site.” A foto é de papel. Ele aparece com a roupa que faz apresentações, com bandas e Djs, como dançarino, sua segunda atividade. Para não contrariar, faço um registro dela com minha digital, mas aviso que o resultado não é bom. Mais tarde, a câmera seria roubada com todas as imagens do dia. Para minha surpresa, quando abri a foto da Feira do Rato que “O Jornal”, de Maceió, cedeu para o blog, lá estava o “Fenômeno”, de óculos de sol com armação branca, olhando para a câmera. Me rendo: esse cara é mesmo artista.  

Na Feira do Rato, Josuel é um dos ambulantes que fazem malabarismos quando o trem apita, para retirar os objetos sobre os trilhos com rapidez. Lá, além de comprar e vender sapatos usados, ferramentas, peças de bicicletas, convivem com menores consumindo drogas e freqüentes batidas policiais. “Se eles aparecerem aqui não vão nem querer saber que você é jornalista. Se não tiver a nota dessa cãmera, vai perder”, me avisa um deles.

“O trem ainda vai passar antes do almoço?”, pergunto. “Hum, acho que lá pelas 11h30 ele volta.” Quem me dá a informação é José Marcos Silva, 65, dono de uma banca de sapatos usados, que tem uma particularidade: um guarda-sol, para se proteger. Foi com as vendas na feira que ele criou 17 filhos.

Antônio Gomes da Silva, 70 anos, há 23 faz comércio ao ar livre. Seu rosto simpático e o corpo esguio não entregam a idade, enquanto negocia com um freguês. Carpinteiro de profissão, criou quatro filhos. Me conta que antes de vender e consertar ferramentas na Feira do Rato, vendia discos de vinil usados no chão, em outro endereço, nos fundos de um colégio, também no Centro. Quando a Feira do  Rato começou, abandonou os vinis.

Decido esperar o apito. “Menina fica aqui nesse canto comigo. Não vai pra lá não, que só ficam os homens”, me aconselha uma senhora que visita a barraca de Silva. Enquanto o trem não passa, a temperatura aumenta. Vejo um vendedor de geladinho, a senhora me oferece um. Recuso, ela e o vendendor insistem.

O clima na feira do Rato é de despedida. Ainda neste ano, os comerciantes serão retirados para dar lugar a um novo serviço de transporte que deverá ser implantado na capital alagoana. Num poste, vejo afixada uma convocação: discussão sobre o futuro dos ambulantes. “Eu só queria que valorizassem meu pontinho”, fala Benedito Fernandes, 63, que se dividiu por 26 anos entre o trabalho na Feira do Rato e o de vigilante.     

Começa o apito. Corro me apertar ao lado da senhora. Tudo é rápido. O trem passa. A movimentação volta ao normal.

Cícera

abril 2, 2009 -
Cícera e as crianças em Piaçabuçu

Cícera e as crianças em Piaçabuçu

Alheia às discussões de Brasília e às oscilações das bolsas de valores, a brasileira Cícera vive sua sina num povoado no município de Piaçabuçu (AL), perto da foz do rio São Francisco. A conheci numa tarde de sábado, quando chegava na cidade. Enquanto lavava roupas, as crianças aproveitavam para se banhar. “Posso te fotografar?” Ela sorriu e consentiu. As meninas se aproximaram. Acharam graça. Mostrei as fotos na câmera. “Olha a Cícera!”, apontou uma delas.

Doce de meninas

Doce de meninas

Asfalto quente

abril 2, 2009 -
 
Primeiros moradores começaram a se instalar em área às margens de lagoa há 22 anos

Primeiros moradores começaram a se instalar em área às margens de lagoa há 22 anos - Arquivo/O Jornal

Da minha intenção de mostrar como vive a comunidade da favela de Sururu de Capote, em Maceió (AL), restou apenas um bloco de anotações caído no asfalto quente da tarde de segunda-feira, dia 23. Tinha acabado de me despedir da líder comunitária Vânia Teixeira, 37 anos, e seguia com outras duas moradoras por uma avenida. Estava a uns 200 metros de um batalhão da PM, que depois viria a saber que tinha sido alvo de incêndio no fim de semana. O rumo eram barracos próximos a uma torre de alta tensão.

“Sai andando, sai andando”, disse o rapaz depois de me mostrar uma arma e levar meus pertences, incluindo todas as imagens de um dia de trabalho.

Desde a hora em que cheguei ao barraco de Vânia, tinha percebido que o dia era complicado. Uma máquina de uma empresa que presta serviços à prefeitura tinha derrubado um poste da favela, deixando, pelos cáculos da líder comunitária, cerca de 800 barracos sem luz.

Ela me recebeu na sala, onde há um computador montado com peças encontradas no lixo, e uma imagem em tamanho natural de Nossa Senhora Virgem dos Pobres. Com dois celulares, ela articulava a religação do poste. “Menina, espera um pouco que preciso resolver isso. Vai ter que concertar logo. Imagina se escurece e a gente nessa situação.”

E foi mais ou menos assim enquanto estive por lá. Enquanto Vânia tentava resolver o problema do poste, Domício Aurélio de Oliveira, 53, um dos diretores da associação, me acompanhou pelas vielas da favela.

Sururu de Capote fica num complexo às margens da lagoa de Mundaú, que reúne cerca de três mil barracos. O embate com a prefeitura, que quer remover as famílias, é longo. “Ao invés de nos transferir, por que não urbanizar a favela? Aqui pelo menos a gente tem trabalho”, argumenta Vânia.

Boa parte das famílias vive da pesca de marisco. Elas recebem R$ 1,50 pela lata de 20 litros. Em frente aos barracos, não é difícil encontrar famílias reunidas enquanto fazem a limpeza do sururu. Outras catam materiais recicláveis, atividade que está em baixa, segundo moradores.  

Cata do sururu na lagoa do Mundaú: próximo passo é limpar, depois ferver o marisco. Cada lata de 20 litros vale R$ 1,50

Cata do sururu na lagoa do Mundaú: próximo passo é limpar, depois ferver o marisco. Cada lata de 20 litros vale R$ 1,50 Arquivo/O Jornal

“Eu tenho sonhos pequenos. Mas pra gente que é pobre e que trabalha honesto é difícil. Meu filho tem vontade de possuir as coisas e eu não posso dar”, me fala, emocionada, uma moradora. Viúva, mãe de um menino de 12 anos, ela passa o dia lidando com marisco à beira da cama da mãe, que deixou de andar há sete anos. Ela diz que luta para que o filho não se envolva com traficantes. No dia anterior à minha visita, tinha completado um ano da morte de seu marido.

Logo Vânia manda me chamar. Ela quer avisar que não vai dar o curso de confecção de bonecas para moradoras àquela tarde, que eu acompanharia. “Não vai ter condições. Ainda não religou a luz. Preciso ficar em cima.”

No dia seguinte, voltei a conversar com ela, pelo celular, e soube que passaram a noite às escuras. As fotos não recuperei. As imagens que acompanham este texto foram cedidas pelos colegas de “O Jornal”, de Maceió.