Seu Gilberto, o andor, e a camisa cor de abóbora que a vida escolheu

Minha mãe é o tipo de pessoa que consegue encontrar humor em qualquer situação. Imagino ter herdado essa característica de seu pai, o velho vô Juca, que partiu há mais de 20 anos. Tenho a impressão que tal comportamento, algumas vezes, pode flertar com a crueldade, mas não é disso que vamos tratar aqui.

Não faz muito tempo, minha mãe resolveu me contar, entre várias risadas, como ela e meu pai se viram pela primeira vez.
Eles tinham 16 anos. Era dia de procissão na cidade, e meu pai estava numa situação pouco, ou quase nada, confortável. Enquanto dona Merce, magrela e espevitada, assistia o cortejo rodeada de amigas, seu Gilberto, também esguio, mas um garoto introspectivo, carregava o andor nos ombros, com meu avô Tonico do seu lado, e meu tio Zé, o irmão do meio, logo atrás. Não me perguntem qual santo eles carregavam, nem quem completava o quarteto. Tampouco sei se meu pai fazia aquilo de gosto, ou pressionado pela família. Acredito, porém, que a segunda alternativa seja a mais verossímil.

Todos esses detalhes teriam passado despercebidos para minha mãe, que de longe ficava na ponta dos pés para avistar os fieis, se naquele dia meu pai não tivesse saído de casa com uma camisa cor de abóbora, talvez beirando o fluorescente.
Era algo incomum para a época, e aos olhos da Merce adolescente aquela atitude pareceu, de certa forma, uma transgressão, mesmo que ela não conhecesse a palavra.

“Seu pai era muito moderno e aquela camisa chamou minha atenção. Só dava ele. Teus avós eram muito católicos”, lembrou, se divertindo com a história. Sei que de longe, naquele dia eles trocaram os primeiros olhares, e da camisa cor de abóbora ainda vibrante na memória foram 46 anos juntos. Dois temperamentos difíceis, que à maneira deles sempre se entendiam, se amavam, até a vida decidir que não estava mais para brincadeira.

Daqui a dois dias, serão seis meses sem meu pai – sem o “bem” que desde sempre ouvi sair das bocas que me criaram, sem o “bem” que ela gritou aos prantos movida pela maior dor do mundo quando soube que ele nunca mais voltaria do hospital para casa.
Diante de dor tamanha, sem o nosso “bem” de toda a vida, penso que o mundo deveria parar, deixar tudo em suspenso, poupar-nos, uma vez que é impossível estar preparado para algo dessa dimensão.

Hoje, dona Merce faz aniversário, 62 anos, mesma idade que seu Gilberto teria completado no dia 8 de setembro passado. A vida é mesmo pra valer, e agora sofro pensando no que dizer a ela.

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Uma resposta to “Seu Gilberto, o andor, e a camisa cor de abóbora que a vida escolheu”

  1. Diogo César Brum Says:

    Simplesmente magnifico…
    Um grande BEIJOOOO…

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