Paixão pelo Jacaré

Quando o assunto era seu time do coração, o motorista João Ferreira, o João Cabeça, não poupava esforços. No tempo que trabalhou dirigindo caminhão, não foram poucas as vezes que chegou a pegar fretes de acordo com as cidades onde o Jacaré iria jogar para poder torcer ao vivo pela equipe.

Com fama de briguento, se posicionava sempre diante do alambrado. Gostava de azucrinar o técnico do time adversário, e lá ficava de pé durante toda a partida, incansável.

Esse comportamento de João Cabeça certa vez o colocou em maus lençóis. Ele deveria ter uns 30 e poucos anos e assistia a uma partida entre o Jacaré e o Marília. Como de praxe, gritava no ouvido da equipe rival alguns insultos.

O jogo, aqui mesmo em Rio Preto, terminou a favor do time da casa. Ofendidos com as palavras de João Cabeça, torcedores do Marília decidiram se unir contra ele.

“Naquela época não tinha nenhuma grade que separava as duas torcidas, então o pessoal do Marília resolveu ir atrás dele”, lembra o professor Vitão Natureza, um dos filhos do motorista.

João Cabeça logo percebeu o risco iminente, e saiu em disparada pelas arquibancadas. Encontrou no caminho uma perna esticada de algum espertalhão que queria vê-lo caído. O torcedor rio-pretense não pensou duas vezes – pisou em cima daquela perna que viu pela frente, e foi refugiar-se junto aos policiais que faziam a segurança do campo.

O boato que correu foi de que com o pisão, a perna do homem mal intencionado havia sido fraturada. Para João Cabeça sobraram uns pontos na testa.

O motorista assumia a fama de briguento, e mais velho nunca se acanhou em contar essa e outras histórias de sua trajetória como torcedor fanático do Jacaré. Ele cresceu no bairro onde o time do coração nasceu, e guardava com zelo o uniforme que usou enquanto fez parte do amador do Rio Preto.

Nos últimos tempos, o motorista andou adoentado e estava desgostoso com o desempenho time. Mês passado, descansou para sempre, aos 62 anos. Em seu velório, muitas passagens foram relembradas por amigos e familiares sobre a vida desse torcedor, que além de briguento, todos sabiam ser coração mole, e um grande brincalhão.

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