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A doçura e a rudeza

abril 4, 2013 -

Seu Antonio Delalibera era uma espécie de avô transgressor, e descobri que eu amava isso
Cresci aprendendo a me equilibrar na carroceria de sua D-10. Me agarrava onde dava, enquanto a caminhonete soltava sua fumaça movida a diesel pelas ruas de Catanduva
Às vezes era uma entrega de sacas de arroz, outras uma ida até o Mercadão para comprar fumo
À noite, quando seu Antonio fin…almente parava para descansar e esticava as pernas sobre uma cadeira, estava eu lá sentada no sofá ao lado dele, me esforçando para respirar em meio as baforadas de seu cigarro de palha
O peito ardia, mas não arredava o pé. Mais importante era ficar perto de meu avô, que ora era doce, ora rude, mas me fascinava o tempo todo
Em datas como Natal ou Dia das Crianças, nada de presentear com brinquedos da moda. Na verdade, nem artigos de gênero algum
Caminhando devagar, normalmente depois de sair do banho e pentear os cabelos grisalhos para trás, ele vinha em direção aos netos cheirando a sabonete, colocava a mão direita no bolso e de lá tirava uma nota para cada, satisfeito
Meu presente sempre tinha valor inferior ao do meu irmão, e para isso seu Antonio dava uma explicação – era proporcional à idade
Não entrarei em detalhes aqui sobre a importância para mim dele criar porcos, galinhas e até uma vaca no fundo do quintal, mas não posso fechar os olhos para a lembrança de quando surgiu um bode amarrado a uma corda na entrada da garagem, onde ficou por alguns dias
Lembro que tiramos foto, eu sorridente ao lado do bicho. Até hoje não sei ao certo qual seu destino. O mais provável é que tenha ido para a panela, algo ocultado pelos adultos na época
A dedicação para encontrar uma boa leitoa caipira para as festas de final do ano era outra peculiaridade de seu Antonio, e o resultado do trabalho podia ser conferido toda vez que minha avó cruzava a porta da cozinha levando a carne assada para a grande mesa que recebia a família nos almoços de domingo
Visitantes mais desavisados ou mesmo frequentadores assíduos que não se acostumavam com a rusticidade de meu avô por vezes se espantavam diante do deleite
“Olha como faz o seu avô”, me dizia ele, enquanto destrinchava um pedaço de leitoa com as mãos
Também havia os domingos em que seu sangue italiano aflorava depois de alguns copos de vinho, e emocionado com a família reunida, ele chorava como criança. Minha avó fechava a cara, constrangida por causa das visitas. Ele não se incomodava. As crianças tampouco. Estavam acostumadas com o jeito de gostar de seu Antonio
Mesmo em seus últimos anos de vida, pouco antes de a doença o derrubar, o espírito transgressor não dava trégua. Era Dia dos Pais, e ele foi flagrado soltando fogos com uma bisneta. Não se importou com os puxões de orelha
Seu Antonio partiu para sempre em agosto do ano passado. Sem ele, muita coisa perdeu o sentido. A grande mesa ficou enorme, e ninguém mais ousou reunir a família em torno dela num almoço de domingo

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