Archive for março \28\UTC 2013

Nossa vitrola

março 28, 2013 -

Para pensar na vida, ele escolhe um velho disco do Vinicius

Senta na ponta direita do sofá com sua postura ereta e cruza as pernas, majestoso

É acompanhado por um copo de cerveja, e em alguns momentos sua voz se mistura à do poetinha – essa, embalada pelo uísque

Para celebrar a vida, ele prefere os versos tristes de Nelson Cavaquinho

Dança no meio da sala, e me olha no fundo dos olhos para lembrar que quer as flores em vida, o carinho, a mão amiga

Para falar de amor, Chico

Às vezes dançamos abraçados e cantamos baixinho

Às vezes me emociono, e choro

Às vezes deito a cabeça sobre seu ombro e fecho os olhos

Um dia ele me disse que já nasceu velho

Espanto

Sei que ainda não cresci – sou uma menina que tenta esconder os cabelos brancos

Anúncios

A descoberta do Sunday

março 19, 2013 -
(Um texto que fiz sobre minha avó e nossas histórias)

Minhas singelas aventuras gustativas ao lado de minha avó, dona Aurora, quando menina, eram tão boas quanto conseguir autorização para brincar na terra e poder se sujar dos pés à cabeça
Nas férias, costumávamos pegar um circular rumo ao centro da cidade com destino ao supermercado Curitiba, que abrigava o que se pode ch…amar de um oásis para aquela dupla sedenta
Com seus altos balcões vermelhos em fórmica, a lanchonete do Curitiba oferecia lindas taças de sorvete coberto com muita calda e castanha triturada – era o Sunday, que eu começava a desbravar
Entre alguns pingos de sorvete na roupa e melado nos dedos, com minha avó de sombrinha em punho para nos proteger do sol até a parada de ônibus, o regresso era uma satisfação só
Certo dia, o deleite foi tanto que caí em sono profundo boa parte do caminho dentro do circular, a ponto de ficar surpresa ao ser cutucada por minha avó, informando a chegada ao destino
Mas minha viagem pelo sentido do paladar ao lado de dona Aurora durante as férias não se limitava ao que era doce
Adorava sua galinha caipira com polenta, e não foram poucas as incursões pelo quintal, em busca de uma vítima que nos servisse de refeição
Depois de sentenciado, o bicho ia para uma bacia de alumínio a fim de ser depenado, e nessa hora minha ajuda era bem-vinda
Com uma chaleira cheia de água fervente, aos poucos a nonna despejava o líquido em nosso futuro prato
Depois, eu ficava à beira do fogão à lenha, à espera dos miúdos que ela colocaria já cozidos em um pires para os netos saborearem
Meu irmão, o mais velho, tinha a preferência, e sempre ficava com o coração
Também me sentia útil quando ajudava dona Aurora no preparo do nhoque, e ao mesmo tempo brincava cortando as tiras de massa em quadradinhos que depois iriam à panela
Diferente do bife de minha mãe, o preparado pela nonna tinha uma boa dose de pimenta do reino, e isso também me atraía
Ainda hoje, admiro minha avó pelo prazer que ela transmite diante de um bom prato, e a curiosidade que mantém viva de conhecer novos sabores
No último domingo, depois de um almoço regado a suco de abacaxi com hortelã, avó e neta se depararam novamente diante de um importante dilema: uma taça de creme de papaia ou um sorvete para refrescar a tarde de calor beirando o insupórtável ?
Depois de uma pausa, o eleito foi o creme de papaia, mas sem licor de cassis. Reflexo de uma nova realidade – dona Aurora agora tem diabetes, e a neta está um pouco acima do peso
Ficamos em silêncio enquanto saboreávamos a sobremesa, e por um momento voltei ao balcão da lanchonete do supermercado Curitiba
Nos olhamos, e concluímos, ao mesmo tempo – “está muito bom, né”

 
 

Para Liza

março 19, 2013 -

A porta abriu, e vi lá dentro uma leoa ao lado da janela
A cria repousava sobre seu peito farto, transformado
O aperto doído da espera, que ela carregou há meses, foi embora
Na verdade, parece até que nunca existiu
Agora, aquele peito explode de uma alegria silenciosa
Ela ampara a cria certeira – sabe que o novo ser depende apenas de sua fartura
Fartura de amor, de alimento, maternidade
Nunca tinha encontrado minha amiga assim mansa, serena
Ela suspendeu a pequena e frágil criatura que dormia em seu peito, e perguntou se eu queria segurar sua cria
Recuei – o território era dela
Theo, com a juba preta dominada pelo sono profundo, nem percebeu tamanha covardia
Olhei para o soro espetando o braço da leoa, e pensei nas supostas agruras da pós-cirurgia
Ela sorriu, generosa
E me fez conhecer uma nova amiga, que agora é mãe
Liza

O sentido da vida

março 19, 2013 -

Hoje seu Antônio veio me visitar
Tinha um propósito claro:
Veio me explicar que a vida tinha perdido a graça
Não era do gosto dele passar os dias num quarto mal podendo se movimentar
Logo seu Antônio, que enquanto tinha saúde também não lhe faltava imaginação, e sempre inventava alguma para fazer
Tirar leite, fazer queijo, picar fumo, fazer um belo cigarro de palha. Um xícara de café
Raramente saía de casa – só se tivesse um motivo muito importante, como visitar o túmulo de seus pais no Dia de Finados
Hoje ele fez o caminho inverso
No final do encontro, nos abraçamos e choramos
Acordei agitada, com o peito ardendo de saudade
Só mesmo meu avô, para me fazer uma surpresa dessas

 

Diálogo da inspiração ou homenagem ao meu irmão

março 19, 2013 -

 

– Por que vc não escreve mais no seu blog? Hoje li ele todinho, desde o início. Faz tempo que vc não escreve, hein!

Fico muda, não encontro explicação. Eu mesma sempre me pergunto isso e não acho uma resposta. Depois de um silêncio breve, digo a ele que me falta inspiração.

– Escreve sobre seu irmão, ué.

– Escrever o que? Já escrevi uma vez…

– Por que vc não escreve sobre aquele dia que você chorou feito criança, quando ele estava embarcando pra Alemanha. Eu vi você chorando aquele dia…

Sim, foi naquele dia que o meu peito ardeu enquanto via um filme rodar na minha cabeça ao mesmo tempo que nos despedíamos. Depois, fiquei na ponta dos pés pra poder ver mais um pouco do seu rosto, e então vc me deixou contente por ter se virado e acenado mais uma vez. Agora preciso parar, porque tô quase chorando de novo, meu irmão.

Beijos, te amo!

Uma história entre avô e neta

março 19, 2013 -
Não me ligo a essas datas, mas sou fã do seu Antônio, que é Tonico, e também vô Ico, e por isso hj lembrei de uma singela história que vivemos juntos, e fiz essa croniqueta.

Com o avançar da idade e a saúde fragilizada, nos últimos tempos meu avô Tonico adquiriu o hábito de distribuir bengaladas entre os que abusam de sua paciência. Talvez o jeito mais fácil que encontrou para pôr fim a uma contenda, aproveitando a deixa dada por aqueles que duvidam de seu juízo.
… Apesar de nossa proximidade, nem a mim ele poupou numa tarde de domingo. Sentada ao seu lado na cama, como que cuidasse de um bebê, insistia para que o velho Tonico me deixasse cortar suas unhas. Eu já tinha recebido um não como resposta, mas a teimosia herdada do próprio não me fez desistir do propósito.
“Ah, vô, vai ser rapidinho.” Dessa vez tive o silêncio como resposta, até que inesperadamente um barulho seco ecoou pelo quarto. Páááá!!!! Demorei uns instantes para acreditar que aquilo era a bengalada certeira que deu em direção à minha pena.
Não posso negar que doeu mais no coração do que na pele. Eu, que nem na maior traquinice da infância havia sequer levado um tapinha de seu Tonico, quase aos 40 precisei de esforço para não chorar. Melhor deixá-lo sozinho, pensei.
Tudo seguiria conforme o previsto se, mais tarde, eu não tivesse flagrado o velho Tônico agora sentado numa poltrona com meu irmão mais velho do lado. O principal, que mexeu com meus brios: meu irmão fazia o que há pouco meu avô não me autorizara.
“Ah é? Então ele o senhor deixa…”
“Não, filha… é que a gente tinha combinado desde ontem.”
A única coisa que pude fazer foi sorrir, depois dele mostrar que sua mente continua tão ágil quanto a sua bengala.

 
 

OBS – esse texto é de julho do ano passado

Prece de um possível futuro motorista

março 19, 2013 -

Fiquei um tempo sem publicar aqui, e agora estou postando umas coisas antigas. O texto abaixo é de um ano atrás.

 

“Já convive com gente que depois que começou a dirigir se tornou uma pessoa pior, por isso escrevi esse texto:

Senhor, se um dia eu tiver um automóvel, livrai-me do egoísmo, do egocentrismo, e de todos os ismos que acometem motoristas em geral

Me mostre que a rua é pública, e que por ela transitam pedestres e ciclistas, e que é dever do grande proteger o pequeno qualquer que seja a situação

Pai, mais que isso, peço que não permita que me tornes preguiçoso, a ponto de não dispensar as quatro rodas nem para ir até o Mercadão aos domingos ou à padaria comprar pão de manhãzinha

Rogo ainda que eu nunca esqueça que existe transporte público, e entenda que haverá dias em que será melhor deixar o carro na garagem

E quando bater a ilusão de que um modelo mais novo me trará felicidade, mesmo que me deixe com dívidas, proteja-me dessa tentação

Amém”