Archive for fevereiro \06\UTC 2012

Cadê aquele prédio que estava aqui?

fevereiro 6, 2012 -

Não é pelo fato de ser palmeirense que gostava de morar em um prédio verde.
Com suas sacadinhas tímidas, uma fachada sem qualquer pretensão, e, o mais importante, a um pé do centro da cidade, aquele predinho verde era motivo de orgulho e sinal de resistência diante da mesmice monocromática do Centro. Até como ponto de referência ele servia, sempre facinho de achar pela sua cor, de gosto questionável, assumo.

Há algumas semanas, porém, meu endereço começou a ficar meio sem graça. Uma comissão de quatro moradores decretou o fim da identidade do velho predinho verde água da Benjamin. Aguns dias seguidos de várias pinceladas foram suficientes para apagar o que era o único prédio com personalidade da redondeza.

Tomado por uma cor bege, areia, algo assim (como qualquer outro da vizinhança, independente do padrão), tudo indica que o ex-predinho verde não possui mais moradores transgressores como antigamente.

A tal comissão, penso eu, apenas concretizou o que a maioria clamava há tempos, acanhada por morar num imóvel que não seguia “a tendência” dos beges e fins. Até seu José, o porteiro mais antigo, concordou com minha indignação.
“Será que eles acham que com essa cor vai ficar mais valorizado?”, perguntei hoje de manhã.
“É, deve ser isso mesmo”, respondeu, conformado.

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A ordem da vida

fevereiro 2, 2012 -

Depois de muita insistência, seu Tonico concordou em dar uma saidinha do quarto naquele domingo nublado e ir até a varanda. Tio Ed chegava pela primeira vez com o velho trator Cinquentinha  vermelho todo reformado, novinho em folha. A lataria brilhava, um antigo desejo de seu Tonico enfim se concretizava.

O filho parou a máquina perto da porta da sala de jantar, onde o pai era surpreendido parado de pé, e a deixou ligada. O trator roncava alto e soltava fumaça preta, tudo muito familiar ao velho e cansado vô Ico. Era aquele trator que lhe servira anos como instrumento de trabalho, e que, antes de a doença o pegar de jeito, era usado para andar pelo sítio e percorrer alguns metros a rodovia que passa em frente à propriedade e chegar até o bar onde proseava com amigos.

Filhos e netos então começaram a se mobilizar para acomodar seu Tonico perto do antigo companheiro de lida. Ele, com a boina inseparável e apoiado em sua bengala, determinou que colocassem a cadeira bem de frente para o bicho, que roncava e esfumaçava sem parar. Nada disso o incomodava. Ao contrário, para ele, era puro prazer.

Já sentado, vô Ico fechava os olhos e mexia a cabeça devagar, num movimento que parecia acompanhar um balanço imaginário em cima do trator.
Agora era meu pai quem acelerava a imponente e estática máquina, num ritmo bem aquém do que o velho faria se estivesse no comando.

Insatisfeito, o pai toma a frente e sinaliza com a mão direita, dando uma ordem ao filho: “Mais alto!”. O ronco aumenta e a fumaça preta sobe mais densa, enquanto seu Tonico continua inebriado com seu passeio imaginário em cima do velho Cinquentinha.

Até parece curado de todos os males, e decide assumir a direção no lugar do filho mais velho. Não é por coisa pouca: ele precisa conferir se o serviço ficou bem feito. Com uma leveza surpreendente, sobe no trator. Dá ré, devagar. Assustados, todos agora pedem para que ele desça. O velho atende o pedido, mas, sem que alguém perceba, segura a chave do Cinquentinha consigo. Depois, baixinho, me avisa: “ela está guardada aqui no meu bolso”. (Foto de Otavio Valle)

Imbá, “morrendo e ressucitando”

fevereiro 1, 2012 -

Precisou esperar a aposentadoria como bombeiro para poder estudar piano. Ao lado de mocinhas delicadas, o homem de mãos rudes foi persistente e aprendeu já adulto a tocar o instrumento que o seduzira ainda na infância. Ano passado, o incansável que também cultiva o gosto pelas letras (sim, até hoje faz poemas para a amada) deu um susto na família. Ficou meses imobilizado numa cama por causa de uma doença da qual agora não se lembra o nome, mas isso não importa. Surpreendeu médicos, filhos e a mulher: aos poucos, voltou a se locomover e a dedilhar o velho piano que fica na sala da aconchegante casa num bairro antigo de Rio Preto. Semana passada, até tocou para a equipe de um jornal que o entrevistou. No final, ao lado da companheira, Évora, tomou suco de manga maçã, fruto colhido do quintal de sua casa, que ele mesmo plantou. “Fui indo, aos trancos e barrancos, morrendo e ressuscitando várias vezes, mas nunca abandonei meu ideal.” A frase repetiu seguidas vezes. Numa delas, fechou os olhos, juntou as mãos ao rosto marcado pelo tempo, baixou a cabeça. Esse é o velho Imbá, 74 anos, preciosidade de Rio Preto. (Foto de Sérgio Isso)