Archive for maio \30\UTC 2011

A grande Tayara

maio 30, 2011 -

Tayara Cristina da Silva Cavalcante, 16 anos, é uma rio-pretense que sabe sonhar. Quer, sim, um dia ser presidente, e não sente vergonha de revelar o desejo na frente dos colegas de escola.

Pois essa menina corajosa que estuda de manhã e trabalha das 16h às 22h num restaurante de um shopping me emocionou na quinta-feira de manhã. Acompanhava um grupo de alunos do Colégio Alarme do qual ela fazia parte, e a certa altura, fui entrevistá-la.

“Há muita desigualdade social. É difícil, mas se a gente parar e se preocupar mais, amar mais o próximo, as coisas podem melhorar”, ensinou Tayara.

Mesmo com a pouca idade, ela já dá o exemplo. Ajuda a mãe todo mês com uma parte de seu salário. Quer fazer faculdade de direito, e um pouco do que ganha vai para uma poupança. Fala do colégio onde estuda com devoção. “A gente é uma família, existe muita fraternidade. É muito emocionante estudar lá.” Grande Tayara

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A queda, a vida

maio 25, 2011 -

Quando pisou no buraco e viu que ia cair no asfalto deu um jeito de apoiar-se com o braço e a mão direita no chão. Já caída, sentiu a mão arder. Aquele ardidinho da infância, que tinha ficado lá atrás.

Se espatifar de bicicleta com o joelho no chão… que saudade, pensou. Corria logo até a farmácia rodeada de amigas suadas, esbaforidas, com as bochechas rosadas. Era conhecida do farmacêutico, e ele já sabia o que ela ia pedir… um belo curativo. Saía do estabelecimento com um tampão de gazes fechando o machucado, feliz. Aquele curativo era o que poderia haver de mais reconfortante depois da queda no asfalto, e ela tinha tornado daquilo um hábito.

Hoje carrega as cicatrizes das velhas quedas de bicicleta, e percebe que o joelho direito sempre foi o apoio de sua preferência, é o que tem mais estragos.

Adulta, já refeita da nova queda, olhou a palma mão. Estava só um pouco avermelhada. É… não seria o caso de recorrer a um curativo, concluiu.

Porém, a sensação que resultara do contato brusco da pele fina da mão com o asfalto não tinha passado. Ficou feliz por uns instantes. A palma da mão, ardendo, a tinha deixado mais viva.

Uma noite punk rock

maio 19, 2011 -

“Dani, sua boca tá sangrando!” Eu era uma caipirona que quis estudar jornalismo em São Paulo para ver a vida como ela é, e vivia naquela noite de 1996 algo que para mim transcendia qualquer expectativa. Ao lado da fiel escudeira Daniela Piaggio, tinha acabado de ver no palco do Olympia Joey Ramone e sua banda. Era a turnê Adios Amigos, anunciando a aposentadoria dos caras.

Destemidas, não pensamos nem um milímetro nas consequências. Nos posicionamos bem na frente do palco, e com o coração na boca. A banda aparareceu: “One, two, three, four”. Foi uma sequência de porradas, tanto no palco, como no meio da galera. Pulávamos e nos protegíamos como dava. Os chutes e empurrões faziam parte da diversão na verdade.

No final do show, Joey ergueu um cartaz: “Hey, ho! Let’s go!” Com seu corpo desengonçado, alto e magro, andou por todo o palco mostrando os dizeres para a platéia ensandecida.

Hoje, ele completaria 60 anos. Vejo Dani (que agora vive em Curitiba e é uma moça centrada) no msn e comento com ela. “Nossa, ele teria quase a idade da minha mãe. Não pensava que fosse tão velho”, ela diz. “Dani, a gente é que era nova…”, observo, e ela concorda.

O sangue do início do texto, só vi no rosto da incansável Piaggio no fim do show. Permanecíamos suadas e felizes na frente do palco quando as luzes ascenderam. Ela nem tinha percebido a pancada, e o sangue já estava seco.

Quando um sobrinho vira pré-adolescente

maio 12, 2011 -

 

Meu sobrinho de 10 anos aboliu de seu vocabulário a palavra tia. Há umas duas semanas, sem nenhum aviso prévio, de “tia Grazi” passei a apenas “Graziela”. Ainda não sei se encaro como algo positivo… Talvez sim – vai que ele me considere mais uma prima do que uma tia, vai que…O fato é que meu sobrinho, além de me chamar pelo nome na íntegra, tem se esquivado dos meus agrados. Domingo à noite, com a família reunida, me ignorou completamente quando lhe chamei para dar os abraços e apertos de sempre.

Mais: no dia anterior, depois de ter chegado todo faceiro porque ia comprar um peixinho beta e ter ido sozinho à casa de ração, ficou todo esquisito ao me ver aparecer de surpresa no momento que escolhia o mini-aquário.

Talvez ele esteja crescendo além do que eu possa enxergar. No domingo à noite perguntei do peixinho azul e pequenino que ele levou para casa. “Tá vivo, Graziela”.

Vai que, vai que…

 
 

A mala, o marmanjo, e sua mãe

maio 11, 2011 -

 

Tomava café com um amigo. Não lembro qual rumo a conversa tinha seguido, a certa hora ouvi uma história que me desarmou. Singela, foi descrita com riqueza de detalhes, e, mesmo antes de seu fim, me esforçava para prender o choro.

Aos 30 e poucos anos e sem um pingo de constrangimento, ele contava que aos fins de semana levava suas roupas para a mãe lavar, costume que só perdeu depois do casamento. Houve um fim de semana, no entanto, que precisou recorrer aos dotes da velha e dedicada mãe.

Na segunda-feira, de volta à sua casa, lá estava ele com a mala em cima da cama. Com todo o cuidado, abriu o zíper lentamente. Viu as camisas limpíssimas, dobradas de forma impecável. O perfume familiar de roupa limpa que há tempos não sentia invadiu o quarto. Estava concretizado no interior daquela mala o cuidado da mãe.

Com o coração aos pulos, ele correu para o telefone. Emocionado, queria agradecer à mulher que lhe trouxe ao mundo aquele gesto, com o qual antigamente ficara tão acostumado, que não chegava a reparar.

Simone Lins

maio 6, 2011 -

É ela na foto, surrupiada de seu facebook

Se sou uma menina de quase 37 anos, ela me passou a perna e é uma de 41. Agora que resolveu voltar à faculdade e cursar cinema, parece ainda mais menina.

Não nos encontrávamos desde janeiro.
No frio de São Paulo, minha amiga apareceu como quase sempre. Usava calça jeans, camiseta e tênis.

A diferença foram os óculos novos, e uma franja mais curta do que de costume. De armação preta e grossa, me confessou que as lentes dos óculos eram também para perto.
– É, amiga, coisas da idade.

Do boteco paramos numa cantina, e do tema oftalmológico pulamos para o dermatológico.
– A pele não é mais a mesma.
Concordo com minha amiga e, assim como ela, estico a pele fina da mão esquerda apertada entre o polegar e o indicador da mão direita para provar a consequência do avanço dos anos.

A franja mais curta, para resgatar o assunto, foi uma peripécia da minha amiga.
– Ah, deu um cinco minutos e eu mesma cortei. Agora preciso ir num salão para arrumar.
– E não foi a primeira vez que você fez isso, lembro, e ela concorda.

O tempo passa. Começo a ficar triste porque sei que logo virá a despedida. Tento disfarçar.

O alento é saber que há pessoas que, como minha adorável amiga, estão sempre tão perto, mesmo longe.