Archive for setembro \15\UTC 2010

Chica e o destino

setembro 15, 2010 -

“Acho que ela queria ter me visto antes de ir.” Foi a única coisa que consegui falar na sexta-feira passada, quando minha mãe me contou por telefone que Chica tinha morrido no dia anterior. Um câncer fulminante levou a cachorra que foi minha companheira durante os três anos que vivi em Palmas. Quando voltei para o interior de São Paulo, precisei deixá-la na casa dos meus pais. Seria muita sacanagem criar um cocker fechado num apartamento e sozinho o dia todo, raciocinei.

Nos anos seguintes, Chica continuou fiel a mim. Sempre fazia festa ao me ver chegar e me seguia pela casa o tempo todo. Não fui vê-la nos seus últimos dias. Não imaginava que iria tão rápido.

Chica foi enterrrada embaixo de um pé de goiaba no sítio de meu avô, e agora quando sento para escrever lembro das vezes em que eu ficava no computador e ela deitada sob a mesa no seu cochilo eterno. De vez em quando, colocava o focinho e a pata em cima da mesa, esbarrava no teclado. Era como se quisesse me dizer: “larga isso aí, que coisa chata.”

Lembro de sua rabujice, do ódio mortal que nutria por carteiros e motociclistas em geral, de como ela gostava de se esfregar em coisas com cheiro duvidoso.

Quando moravávamos só nós duas, sempre precisava de cautela ao abrir o portão. Se tivesse chance, Chica perseguiria uma moto por vários quarteirões. Uma vez chegou a ser atropelada por um condutor impaciente.

“Essa aí é o terror da quadra debaixo.” Cheguei a ouvir do entregador de um supermercado do bairro. Se eu deitava no sofá, ela vinha com o nariz gelado em cima de mim querendo agrado.

Em outra fuga, vi Chica de longe deitada esfregando as costas no chão com ar de contente. Só quando voltou descobri que ela rolava em cima de um óleo queimado. Foi preciso muita água e sabão para limpar aquilo tudo. Dentro do tanque, eu esfregava sem dó. Ela permanecia imóvel, parecia que sabia que tinha aprontado.

A última vez que a encontrei, Chica já estava sem forças. Tinha perdido muito peso e ficava ofegante com qualquer esforço. Mesmo assim, foi companheira. Se deitou ao lado do sofá onde eu estava e lá ficou, sem alarde.

Queria ter sido mais presente nos últimos tempos. Queria ter estado lá a hora em que ela se foi. Nesse mundo de vaidades e interesses, Chica foi minha companheira até o fim, sem querer nada em troca além de um afago, de uma brincadeira.

“Grazi, agora ela está no céu fazendo festa com o Zulu”, me consolou uma amiga que também perdeu seu cachorro há pouco tempo. Tento imaginar Chica nessa situação, na tentativa de que a dor diminua.

Anúncios

O susto

setembro 9, 2010 -

Parece piada, mas passei três dias com um carrapato grudado na perna, na parte detrás do joelho, pensando que aquela bolinha escura se tratava de uma verruga que saiu de repente e que eu tinha quase arrancado sem querer. A primeira vez que me deparei com o corpo estranho foi na segunda-feira, quando tomava banho para ir ao trabalho. Passei uma pomada cicatrizante, tive medo de terminar de arrancá-la. À noite, encontrei os amigos e até mostrei a mais nova verruga… Dormi com o bicho lá grudado. Antes de deitar, mais pomada. Na terça, de plantão no jornal, lá fui eu trabalhar de vestido e com o picho pendurado na perna. Antes de sair, lasquei uma crosta de pomada em cima dele, claro.

Só descobri mesmo do que se tratava hj de manhã, quando decidi que iria arrancar a tal verruga pedurada por um fio. A surpresa foi que mais de perto descobri que a verruga tinha pernas… era um carrapato dos gordos. Peguei um pedaço de papel higiênico e arranquei o bicho. Onde ele estava, ficou uma área arroxeada. Muito álcool na região para dar um efeito psicológico de que estava tudo bem…

O bicho foi embora pela descarga. Mas comecei a pirar… “Onde peguei essa coisa? E a febre maculosa?” Cheguei no jornal à tarde e contei o acontecido. Fui aconselhada a procurar um veterinário.

“E aí, ele tava na dobra do joelho?”, peguntou um colega com ar de brincadeia. “Sim, como você sabe? Já andaram fofocando, né?”, respondi, no meu desespero. Saquei o número do celular de um professor do curso de veterinária da Unirp que entrevistei duas vezes. Ele atendeu, mas passou para uma colega melhor entendendida da área. “Olha, você ficou mais de 48 horas com ele no corpo, foi tempo suficiente para transmitir a febre maculosa. Te aconselho a procurar um infectologista.”

Do outro lado da linha, foi aumentando o desespero. À noite não pensei duas vezes e corri no pronto-socorro. Não tinha conseguido um infectologista que me atendesse tão rápido.

No consultório: “Doutor, fiquei três dias com um carrapato preso na perna. Eu pensava que fosse uma verruga e só percebi hoje do que se tratava.”

“Onde vc andou? Sabe como pode ter pego esse carrapato?”

“Olha doutor, eu passo sempre pela represa, pode ter vindo de alguma capivara. Mas também semana passada andei frequentando umas residências precárias, feitas de madeira… O carrapato era daqueles gordos, acho que era a fêmea.”

O clínico-geral me acalmou. “A única doença que pode ser transmitida é a febre maculosa, mas pode demorar até 15 dias para os sintomas se manifestarem. Fica tranquila.”

“Mas doutor, tem tratamento, é tranquilo?” 

“Claro. É só tratar.”

Fui pra casa um pouco mais calma. Seja o que Deus quiser, pensei. Amanhã tento um infectologista.

Pensando melhor, acho que o que preciso mesmo é de uma cirurgia de correção da miopia, para nunca mais confundir carrapato com verruga…