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Tio Ed

agosto 21, 2010 -

Sempre vivi meio nômade. Talvez por isso encontros marcantes e despedidas dolorosas sempre estiveram presentes em minha vida.

Com tio Ed, irmão mais novo de meu pai, em toda minha infância e parte da adolescência foi assim. Era década de 1980 e ele era estudante de publicidade na Capital. Nas férias nos visitava.

Brincalhão o tempo todo, eu admirava tudo que ele fazia. Para aquela menina do interior, tio Ed era sinônimo de liberdade.

Nas fotos ao lado dele, lá estava eu sempre sorrindo. Pequena, banguela, meio gordinha, depois adolescente desengonçada. Só chorava na hora da despedida. E como chorava… quantas lágrimas derramadas em despedidas do tio Ed.

Houve um tempo em que ele foi morar na Europa. Quando voltou, estranhei. Nunca tinha visto tio Ed bebendo, fumando então… Aquilo tudo era novo pra mim. 

Depois chegou minha vez de ir estudar na Capital. Algumas vezes em que fiquei sem república, tio Ed me salvou, mesmo que contrariado. Hoje eu entendo os motivos dele, naquela época, achava que minha presença não poderia incomodar um solteirão na casa dos 30 e poucos.

Graças a ele, a universitária caipirona conheceu alguns lugares bacanas. Até na cadeira laranja do Pacaembu para ver o Palmeiras ao lado dele eu sentei.

Hoje tio Ed virou um homem de meia idade ranzinza. A paciência é curta e não faltam respostas atravessadas.

O das antigas surge muito de vez em quando, nas vezes em que encontra as crianças da família. Aí é que ele dá uma brecha à brincadeira.

Só observo, e sinto saudade de quando eu era parte dessa história.

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Dia dos Pais

agosto 9, 2010 -

Domingo, Dia dos Pais

Meu irmão mais velho me pega na rodoviária. Passa um pouco das 13h.

“E aí, vamos na vó?”

“Sim, e todo mundo já almoçou. Só falta você.”

“E como tão as coisas por lá?”

“Ah, nem te conto. Seu avô tá estourando bombinha.”

Mais uma vez seu Tonico se supera. Meu irmão estaciona o carro, ele já nos aguarda em frente de casa e, lógico, fala que deveria ter parado o carro “ali” e não “lá”. Usa uma boina verde. Essa eu não conhecia.

Lavo as mãos e vou direto pra mesa. Polenta e galinha caipira… não preciso de mais nada.

Na segunda ou terceira garfada, começa o barulho. Vem uma sequência de três estouros e três sustos. É seu Tonico, lá fora com a neta de 9 anos, estourando bombinha.

“Vó, onde ele arrumou isso?”

“Ele tava limpando o quartinho dos fundos e achou uma caixa. Agora vai ficar estourando enquanto não acabar”, diz ela, sem o menor espanto, ao se referir a um senhor na altura de seus 80 e poucos anos estourando bombinha no almoço do Dia dos Pais.

A brincadeira acaba. Ele quer dar uma volta com a neta no trator. Insiste. Meu irmão fecha a cara. Seu Tonico, resignado, senta na ponta da mesa na varanda e começa a picar fumo para seu cigarro de palha.

O que será que nos aguarda no ano que vem?

“Tchau, vô.”

“Já vai? Deus te acompanhe minha filha.”

Juízo, seu Tonico.