Archive for abril \27\UTC 2010

Final feliz

abril 27, 2010 -

Ontem à tarde, Marciano encontrou Passo-preto, que está no sítio de um ex-vizinho (Foto: Thomaz Vita Neto/Diário da Região)

Um empresário de Rio Preto procurou a família de Marciano no sábado depois que viu sua história no Diário e comprou o cavalo de estimação de volta. O animal tinha ficado com o arrendatário do sítio que ele morava para pagar o conserto de um incêndio provocado por ladrões. Depois do choro, olha ele aí com seu “Passo-preto”.

Farias e Garcia

abril 25, 2010 -

Ayla é uma das poucas pessoas que de vez enquando me lembram que não há mal algum em ser quieta, interagir pouco. Logo ela, que quando vi pela primeira vez hesitei. Falava alto demais, espalhafatosa demais, colorida demais. Tudo naquela figura que acabava de entrar na redação para assumir a editoria de cultura destoava do meu jeito – calado, arqueado, monocromático.

Desde aquele dia, muita coisa mudou. Uma amizade surgiu. Ayla e Júlio se uniram. Yuri nasceu. Telma, a avó mais coruja que já conheci, chegou. Ayla, que sempre defendeu com unhas e dentes as pessoas que ama e as suas opiniões, e que para fazer isso não se importava em comprar briga a qualquer hora, “amansou”. 

Não posso negar que desde que soube que Júlio aceitou uma proposta de trabalho em Brasília e que essa família vai nos deixar fiquei um pouco mais apagada.  

Que Jesus ilumine o caminho deles, e o nosso.

Garoto sonha em reaver cavalo

abril 24, 2010 -

 

Marciano e a sela de Passo-preto (Foto: Rubens Cardia/Diário da Região)

Marciano Basílio Lima Neto, um menino de 11 anos que planeja ser fazendeiro e criar touros para rodeio, sonha no momento em recuperar o bem mais precioso que conseguiu até hoje – um cavalo que ganhou do pai há 2 anos e 3 meses. Ele perdeu o animal depois que a casa em que morava, localizada num sítio na Estância São Pedro 1, foi incendiada por ladrões na quarta-feira à noite.

A família dele vivia de favor no local e o cavalo e uma carroça foram deixados pelo pai do garoto, o entregador de bebidas Reinaldo Aparecido Confeti, 36, com o arrendatário do sítio, que irá vendê-los e usar o dinheiro nas obras de reparos do imóvel. “Eu concordei em dar o cavalo porque o arrendatário não poderia ficar no prejuízo e nós não tínhamos dinheiro para o conserto”, diz a mãe de Marciano, a dona de casa Rosângela Basílio Lima de Caires, 36.

“Ganhei o cavalo de meu pai logo depois que ele nasceu, vai fazer muita falta”, fala o menino, que gosta de pular da cama nos fins de semana às 5h para tirar leite no sítio de um antigo vizinho. As chamas destruíram dois quartos da casa, onde dormiam Marciano e a irmã Juliana, 9, e o irmão Alessandro, 16. Na hora do crime, todos estavam no bar recém-adquirido pela família, no Jardim Laranjeiras. O fogo consumiu três camas e colchões, três guarda-roupas, uma televisão, um videogame, um aparelho de som, além de roupas, calçados, brinquedos e material escolar. Os ladrões levaram somente uma televisão 29 polegadas que estava na sala.

Os três irmãos ficaram apenas com a roupa do corpo e ontem não conseguiram ir à escola. “Os meninos perderam mochilas, cadernos, livros. A sorte da Juliana foi que ela tinha levado a mochila para fazer a tarefa no bar”, diz a mãe. Alguns vizinhos colaboraram doando roupas e uma cama. “Preciso de tudo, qualquer ajuda é bem-vinda”, disse ela. Quem quiser ajudar, deve ligar para (17) 9165-5884.

Na tarde de ontem, o que sobrou da mobília estava amontoada nos fundos do bar. Marciano, inconformado, senta ao lado da sela que usava no cavalo, relutante em dar entrevista. A mãe dele aponta as botas de vaqueiro que o filho usava para andar no pasto, único par de sapatos que se salvou do incêndio.

Agora, o menino passa a maior parte do tempo andando de bicicleta, jogando bola ou em volta de uma mesa de sinuca que fica no interior do bar. Foi para lá que a família se transferiu desde a noite do incêndio. O terreno tem uma casa nos fundos, para onde eles já planejavam mudar. “Íamos ficar no sítio até o dia 25, mas tivemos que antecipar”, fala Rosângela. “Passo-preto” ficaria no sítio de um antigo vizinho. Marciano ainda tem esperanças em ter de volta o animal. “Se pagar, a gente consegue recuperar.”

PS – Essa matéria foi publicada hoje no Diário. Já apareceu gente interessada em ajudar a trazer o cavalo de volta. Vamos torcer para que o desalmado que pegou o animal colabore!

Ela viveu 94 anos

abril 22, 2010 -

Passou sua infância e adolescência em lavouras de café no interior de São Paulo. Ajudou o pai a juntar riqueza mas não teve direito a herança. Era filha mulher. Talvez por isso também tenha aprendido a escrever apenas o nome.

Evangélica fervorosa, criança eu a acompanhava nos cultos de domingo à noite. Íamos caminhando até a igreja. Para mim era diversão.

Um de seus poucos luxos que tomei conhecimento foi um fogão que adquiriu quando já estava na casa dos 90, embora na época não cozinhasse mais. Usaria para esquentar um leite, fazer um café – afinal, sempre quis um fogão novinho quando tinha menos idade e não pôde comprar. 

Ela perdeu o companheiro há 20 anos, completos no último dia 14. Há cerca de dois, foi dada como desenganada.  Seu coração, no entanto, bateu até segunda-feira, a um mês de completar 94 anos.

Dona Izalina deixou uma prole tão grande, que os familiares de uma cidade vizinha encheram um ônibus para lhe prestar as últimas homenagens. Teve treze filhos. Dez estão vivos. Netos somam mais de 50. O mesmo os bisnetos. Descobri em seu funeral que existem ainda dois tataranetos.

A essa altura, ela já deve ter se encontrado com meu avô Juca em algum lugar no céu.

Conversa inversa parte 2

abril 15, 2010 -

Lá vou eu digitar os mesmos números, como se fosse a primeira vez. Ajo naturalmente…

Telefonista: – Fórum

Eu: – Por favor, o ramal 53

Telefonista: – Pois não

Conversa inversa

abril 15, 2010 -

É mais uma tarde como quase todas as tardes. Só estou um pouco mais distraída. 

Faço mais uma das dezenas de ligações de todas as tardes, mas distraída. 

Aquela voz de sempre atende rápido, coisa rara.  

Telefonista: – Fórum

Eu: – Alô?

Telefonista:  – Fórum

Eu: – Alô?

Telefonista: – Fórum (agora levanta um pouco a voz, parece um pouco nervosa)

Eu: Alô? (levanto também, afinal parece que a pessoa do outro lado não consegue me ouvir)

Ela desliga