Archive for fevereiro \28\UTC 2010

Oração a São Pedro 2

fevereiro 28, 2010 -

São Pedro, agradeço a graça parcialmente alcançada – apenas caiu uma garoa fina, não teve raios nem trovões

Nadei mil metros e prometo nadar o dobro, se o senhor continuar colaborando, amém

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Oração a São Pedro

fevereiro 28, 2010 -

Parece que vai chover. Deixa eu ir pra rua enquanto a água não começa a cair.

Vou pro clube nadar. Tomara que São Pedro tenha pena de mim, e espere algumas horas pra abrir as torneiras. Ou pelo menos até que eu saia da água.

Ai, São Pedro, tem dó de mim…

Saudades da ferrovia

fevereiro 28, 2010 -

João Fernandes: memórias (Sérgio Menezes/Diário da Região)

Ao lado dele, sentindo um cheiro agradável de quem acabou de sair do banho, me esforço para entender suas palavras. De regata branca, com um crucifixo de madeira no peito, parece que a vontade de compartilhar suas memórias é tão grande quanto o número de histórias para contar. Ele fala sem parar, penteia os cabelos grisalhos e ainda úmidos, deixa o pente sobre uma perna, e começa a gesticular: “Da estação de Araraquara até Presidente Vargas conhecia tudo, como a palma da mão”.

João Fernandes, 96 anos, é ferroviário aposentado. Trabalhou cerca de 30 anos na EFA (Estação de Ferro Araraquara), que teve seus primeiros trilhos lançados em 1898, entre Araraquara e Matão, alcançou Rio Preto em 1912, e seguiu até Rubineia, com a estação Presidente Vargas. Ele começou como servente e chegou a mestre de obras. “Na minha época trabalhava de sol a sol. Só faltei quando meu pai morreu, e depois na missa de sétimo dia dele, mas tive que justificar.” Viúvo do primeiro casamento, do qual teve cinco filhos, hoje o aposentado vive com a segunda mulher, Mariana, 65, numa casa perto da antiga estação de Uchôa, que virou biblioteca.  

Seu João sente saudades do trabalho, e diz que se pudesse voltaria à labuta. Lembra que houve um ano em que foi eleito o melhor funcionário entre cinco ferrovias paulistas. “Até hoje não sei o motivo que me escolheram”, diz, balançando a cabeça, e continua:  “Quando ia ter uma promoção, um aumento, e me perguntavam quem merecia, eu falava que todo mundo tinha filhos para criar, então se não fosse para todo mundo, não seria para ninguém.”

PS – Seu João está numa matéria publicada hoje no Diário da Região, sobre a situação das estações ferroviárias da região de Rio Preto, que pode ser acessada por aqui: www.diarioweb.com.br

Yuri

fevereiro 19, 2010 -

Eu queria ser aquele menino

Pra em noites de calor ir ao boteco vestindo macacão sem camisa por baixo, alguém tirar meus sapatos, retribuir um sorriso com choro, e ninguém me recriminar

Eu queria ser aquele menino

Pra em casa rolar na grama, e depois minha mãe contar minha façanha pros amigos na mesa do bar

Eu queria ser aquele menino

Poder dançar nos braços da minha avó, jogar truco imaginário com meu pai, ganhar uma garrafa plástica de um adulto bobo e até com ela conseguir brincar

Eu queria ser aquele menino

Pra mudar a vida de uma mulher – quem diria, ela agora não se importa com a explosão da dengue, nem dá bola se a meningite é por meningococo ou pneumococo, ou se o Bolsa Família o governo decidiu cortar

Eu queria ser aquele menino

Que cada vez que vejo parece que tem mais graça. Fica com sono, faz manha, vai para o colo da mãe. Dorme sem fazer cerimônia – a essa altura só de fralda, vale lembrar

Eu queria ser aquele menino

Que me faz sentir saudade daquela menina que ficou pra trás, e me leva até a rimar

Rabisco

fevereiro 13, 2010 -

Sonhei algumas vezes com um amigo e um baixo acústico. Numa delas coloquei o sonho no papel. O resultado é esse aí. Diz ele que já pensou em tatuá-lo. Homem de coragem se isso acontecer mesmo um dia… :)

Meu desenho (já fui melhor nisso)

Do lado de fora

fevereiro 6, 2010 -

Pois é, ontem de manhã eu e o repórter fotográfico Sérgio Menezes fomos impedidos de entrar na DIG para acompanhar a entrevista coletiva sobre a prisão do grupo de Araraquara acusado do latrocínio em Mirassolândia. As informações que deram origem à matéria publicada no mesmo dia pelo jornal (reproduzida logo abaixo) e que revela que 4 homens ficaram presos injustamente por esse crime foram apuradas com Justiça, Ministério Público, advogados e vítimas. 

O delegado responsável pelo esclarecimento do caso se irritou porque divulgamos a história no mesmo dia em que ele dava a coletiva. O mais triste foi perceber que houve colegas presentes na coletiva que aprovaram a atitude do delegado. Hoje o mestre Júlio Cezar Garcia se solidarizou: “Se fosse eu que estivesse lá também não teria entrado. A categoria precisa ser mais unida e entender que o que acontece com um hoje, pode acontecer com o outro amanhã.”

Fica aí a reflexão.  Bjs

fevereiro 5, 2010 -

Quando ouvi o repórter especial Allan de Abreu se despedir do editor do caderno José Bonato na quarta-feira à noite e dizer que precisaria da ajuda de um repórter numa matéria do dia seguinte, e que essa seria sobre quatro homens presos injustamente, minha reação foi automática. Pulei da minha cadeira e entrei na conversa: “Eu posso entrar mais cedo amanhã pra ajudar.” Até então, nem os nomes dos quatro tínhamos. Apenas que haviam sido acusados de latrocínio.

Quando Allan chegou após o almoço, eu estava com o número do processo, o nome de dois deles, e sabia que haviam sido absolvidos pela 2ª Vara de Mirassol. Mais um tempo, estávamos com os nomes e telefones dos advogados. A partir daí, a corrida foi contra o tempo. A DIG (Delegacia de Investigações Gerais) tinha marcada uma coletiva para hoje de manhã para apresentar aqueles que seriam os reais autores. Ou seja, se não conseguíssemos a história, perderíamos o furo.

A matéria dos quatro homens que foram presos injustamente foi publicada hoje no Diário e reproduzo aqui.

Falha da polícia deixa quatro inocentes na cadeia 13 meses
 
Allan de Abreu e Graziela Delalibera

A Polícia Civil de Rio Preto descobriu que quatro homens de Tanabi foram presos acusados de um latrocínio em Mirassolândia que não cometeram. Mesmo inocentes, três deles passaram 13 meses atrás das grades. O grupo foi denunciado pelo Ministério Público e absolvido pela Justiça. Dois teriam sido torturados para admitir o crime. Um deles teria assinado a confissão depois de cinco horas sob socos, pontapés e choques elétricos.

Hoje pela manhã o delegado José Augusto Fernandes, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Rio Preto, apresenta o grupo que, segundo ele, é o verdadeiro culpado do crime: quatro homens e uma mulher, todos de Araraquara, sem relação alguma com José Prudêncio Diniz, Fernando Costa de Souza Mota, Luís Ricardo Bernardes e Marcelo Agradano. Com exceção do último, todos eram réus primários.

O crime ocorreu na noite de 27 de maio de 2008. Um grupo encapuzado invadiu o sítio da família Assunção em Mirassolândia, levou R$ 15 mil em dinheiro e cheques e agrediu o comerciante Antonio Freitas de Assunção Filho, 53 anos, e o filho dele, Juliano Ricardo Freitas Assunção, 28 anos, com socos, facadas e pauladas. Antes de saírem, um deles deu sete tiros de pistola contra os dois. Uma bala atingiu Juliano na barriga e outras duas acertaram Antonio no ombro e braço direito. Juliano morreu minutos depois.

Na mesma noite do crime, vizinhos do sítio disseram ter visto um Gol estacionado próximo à propriedade. Minutos depois, a Polícia Militar abordou os quatro em um Gol com as mesmas características. Todos foram liberados, mas a suspeita motivou pedido de prisão temporária de Diniz. Em 3 de junho, seis dias após o crime, ele foi preso em casa pela Polícia Civil. Teria sido levado para a Delegacia de Mirassolândia, e de lá para uma casa por um policial civil e outro rapaz.

Amarrado em um pau de arara, levou chutes, socos e choques elétricos no ânus, testículos e orelhas, até assinar a confissão. “Foi terror puro o que fizeram comigo”, diz. Mota foi o segundo a ser preso. Eduardo Canhivares, seu advogado, conta que ele foi torturado num matagal, mas não confessou a autoria. Já no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Rio Preto, Diniz escreve uma carta ao advogado dele onde relata a suposta tortura e se diz inocente. Interceptado por um carceireiro, o documento foi entregue à DIG e motivou uma investigação paralela pelo delegado Fernandes. Outro detalhe que chamou a atenção, segundo o advogado de Mota, é que a perícia achou no sítio uma faca manchada de sangue.

Ela teria sido usada contra um dos assaltantes pela vítima sobrevivente, que, quando foi surpreendida, cortava uma fruta, mas não foi requisitado exame para comprovar de quem era o sangue. Em 23 de julho de 2009, o juiz Flávio Artacho, de Mirassol, absolveu Diniz, Mota e Bernardes por falta de provas. No caso do Gol, um comerciante confirmou em juízo que, no momento do crime, os quatro estavam na padaria dele, de acordo com o advogado de Diniz, Cássio Campos.

Agradano foi absolvido em dezembro de 2009. Ele é o único que ainda está preso, mas por um outro crime: tentativa de homicídio em Ipiguá. Campos disse ontem que só aguarda a confirmação da absolvição de Diniz pelo Tribunal de Justiça (TJ) para ingressar com uma ação de indenização contra o Estado por danos morais. “O prejuízo que o meu cliente sofreu nesse período foi imenso. Ele carrega sequelas psíquicas até hoje.” O mesmo pretende o advogado de Mota.

Criminosos usavam capuz

O promotor de Justiça Valmor de Mattos Júnior, que denunciou o grupo de Tanabi por latrocíonio, disse que baseou suas acusações na confissão de José Prudêncio Diniz feita na Delegacia de Mirassolândia, e também no depoimento de um investigador e do delegado de polícia que comandou o caso. O pintor afirma que fez a confissão sob tortura. Em juízo, todos negaram a autoria do crime. A promotoria recorreu das sentenças do juiz da 2ª Vara, Flávio Artacho, que absolveu os réus. Mattos Júnior falou que a Promotoria irá oferecer denúncia contra os novos supostos se entender que as investigações da DIG foram corretas.

Vítima

“Nunca reconheci ninguém, não tinha condições, e isso era o que eu mais queria.” O lamento é do comerciante Antonio Freitas de Assunção Filho, que sobreviveu ao crime que levou a vida do filho Juliano Ricardo, então com 28 anos. Ele fala que os homens que invadiram seu sítio estavam encapuzados. Além disso, no momento do crime, o sítio ficou sem energia. “Sempre falei que eram uns quatro. Mas nunca disse com exatidão, era uma suposição com base nas vozes que ouvi.” “Sinto muito pelo acontecido. Ninguém deve pagar pelo o que não fez. Agora quem tem que se explicar é a polícia.”

‘Tenho pesadelos até hoje’

O comerciante Juliano Ricardo Freitas Assunção, morto em 2008 em Mirassolândia; ao lado direito, José Prudência Diniz: confissão sob tortura (Foto: Carlos Chimba)

O pintor José Prudêncio Diniz, 47 anos, ainda carrega sequelas tanto do período em que ficou preso quanto da tortura que afirma ter sofrido. “Tenho pesadelos com a cadeia, a polícia correndo atrás de mim, eu apanhando. Tomo calmante até hoje.” Diniz revela em detalhes o dia em que diz ter sido seviciado. “Eles me levaram para uma casa e me amarraram de ponta cabeça em um cavalete. Pediam que eu assinasse a confissão do crime. Enquanto isso, davam socos, chutes e choques.” Depois, diz, teria sido levado para um outro quarto e amarrado em uma cama, onde, segundo o pintor, foi novamente torturado com choques no ânus, testículos e orelhas. Após cinco horas, assinou a confissão e admitiu a participação dos outros três no crime.

De lá, foi levado para a carceragem da DIG em Rio Preto, onde ficou 35 dias até ser transferido para o CDP. A Corregedoria instaurou inquérito para investigar a suposta tortura. Mas o caso foi arquivado por falta de provas – o exame de corpo de delito feito logo que Diniz chegou à DIG não apontou agressões contra ele, segundo a Corregedoria.

“Meu cliente era um jovem saudável, jogador de futebol amador. Hoje sua vida mudou completamente. Ele sofre de depressão, crises de choro e pesadelos”, narra Eduardo de Freitas Canhivares, advogado de Fernando Costa de Souza Mota. Segundo ele, o réu teria sido levado encapuzado para um matagal, onde foi torturado com choques na área genital e apanhado nas costas. O delegado de Mirassolândia, Amaury Scheffer de Oliveira, não foi encontrado ontem na delegacia para comentar o caso.