Archive for janeiro \29\UTC 2010

Encontro

janeiro 29, 2010 -

– Doutor, será que a gente pode ir aí entrevistar ele?

– Olha, vou dizer pra você a mesma coisa que falei pra um repórter de outro veículo. A família tem que autorizar.

– Tá bom. Vou falar com a família então. Tem que ser uma autorização por escrito, né?

Foi assim, no meio de um telefonema para saber do aposentado Nilson de Andrade Justino, 47, que resolvi perguntar se poderia entrevistar o homem que está preso desde domingo na DIG de Rio Preto acusado de matar a mulher e as duas filhas com requintes de crueldade (elas tiveram traumatismo craniano causados por marretadas e depois foram decapitadas). Esse diálogo foi no fim da tarde de terça-feira. No dia seguinte, liguei para a mãe do acusado, dona Neiva. Ela concordou.

– Doutor, consegui a autorização da mãe. Estou ligando pra saber que horas podemos ir.

– Olha, é melhor trazer ela junto…

Balde de água fria.

Mesmo assim, no horário combinado, fui com o repórter fotográfico Thomaz Vita Neto à casa de dona Neiva buscar a autorização. Ela apareceu no portão e o inesperado aconteceu. Dona Neiva foi conosco até a DIG. A partir daí, uma nova situação se desenhou. Se a idéia inicial era uma entrevista, participamos do primeiro encontro entre o acusado e a mãe após o crime. Das perguntas que fiz, Justino respondeu apenas uma. Negou que tenha brigado com a mulher no dia do triplo assassinato.

A descrição daqueles momentos foi publicada nesta quinta-feira no Diário da Região. Reproduzo aqui o texto aos poucos e fiéis leitores. No final, posto um comentário que Romildo Sant’Anna enviou na manhã de hj, e que acalmou minhas inquietações. Abraço!

Pergunta sem resposta

janeiro 29, 2010 -

Graziela Delalibera

Dona Neiva com o filho Nilson (Fotos: Thomaz Vita Neto/Diário da Região)

“Perdeu tudo as coisas, mãe.” Essa foi uma das poucas frases que o aposentado Nilson de Andrade Justino, 47 anos, conseguiu dizer à mãe, Neiva de Andrade Justino, ontem, em seu primeiro encontro com a família após ter sido preso na Delegacia de Investigações Gerais (DIG) sob a acusação de matar a mulher e as duas filhas, no domingo.

As três foram atacadas com marretadas, e depois decapitadas, dentro de casa, no Solo Sagrado, zona norte de Rio Preto. O encontro foi testemunhado pelo Diário, no dia em que a mãe do acusado completou 66 anos. Lucelena de Sousa Pinheiro Andrade Justino, 40, Tatiana Pinheiro Justino, 23, e Mariana, 18, foram enterradas há três dias.

Pés descalços

De cabeça raspada e pés descalços, Justino mais parecia um animal acuado quando entrou na sala onde era aguardado para o encontro. Era o oposto da imagem que surgia nas histórias a respeito de seu passado – do tempo em que jogava capoeira, ou de quando construiu sua própria casa, tijolo a tijolo, com a ajuda da mulher.

Ele não esboçou qualquer reação ao ficar frente a frente com a mãe e o irmão, o metalúrgico Nilton, de 42 anos. “Nilson, tá vendo que é a mãe que está falando com você? É a Neiva, filho. Você conhece o seu irmão, né?”, disse a mãe do acusado, enquanto, num gesto de desespero, passava as mãos no rosto e na cabeça do filho. Pouco antes, dona Neiva havia comentado que talvez aquela fosse a última vez que se encontraria com ele.

O que era revolta logo depois da descoberta do crime, aos olhos de quem presenciou o encontro tornou-se compaixão. No dia do enterro das vítimas, Neiva havia dito que não queria ver o filho tão cedo. “O que deu na tua cabeça, meu filho? A mãe vai te entregar na mão de Deus. É o único que pode te ajudar agora. A mãe não tem mais nada que pode fazer pra você”, disse, resignada.

Perguntas sobre os motivos que o teriam levado a cometer o ato não faltaram, e a todas ele respondeu de forma evasiva. Porém, surpreendeu quando Neiva enumerou as qualidades de seu caráter: “Você não bebe, você não usa drogas, você não usa nada…”, “Droga eu não uso, não”, ele reforçou.

A certa altura, o aposentado começou a aparentar inquietação. Fazia menção de se levantar do sofá e voltava a sentar no mesmo lugar. Quase não olhava a mãe nos olhos. Negou que tenha brigado com a família no dia do triplo assassinato, e fez o mesmo em relação à hipótese de uma discussão sobre religião ter motivado a barbárie. Embora tenha se lembrado no dia da prisão do local onde havia deixado os instrumentos usados no crime (uma marreta e uma serra de pedreiro), respondeu ao delegado Alceu Lima de Oliveira Júnior que não se lembrava da conversa.

Justino é aposentado por invalidez. Desenvolveu problemas psíquicos depois de ser assaltado quando era cobrador da Santa Luzia. Na sexta-feira, ele próprio raspou a cabeça. Para a cunhada, Tânia Donizetti Pinheiro, irmã de Lucelena, já era um sinal. “Sempre que ele queria aprontar alguma raspava a cabeça.”

“Por que ele fez aquilo? Isso vai ser uma pergunta que vai ficar sem resposta”, confidenciou à reportagem do Diário a mãe de Justino, enquanto aguardava, em frente à DIG, o carro que a levaria para a casa. Antes de voltar à cela, durante a despedida da mãe, o acusado pediu a sua bênção.

 
 

Após o encontro, ele volta à cela

TRECHO DO DIÁLOGO

Mãe – Nilson? Tá vendo que é a mãe que tá falando com você? É a Neiva, filho? Você conhece o seu irmão, né?
Nilson – Não sei, mãe.

Mãe – Não sabe? Nós viemos te ver, meu filho. O que foi que deu na tua cabeça, meu filho?
Nilson – Não deu nada.
Mãe – Por que você fez aquilo, filho?
Nilson – Perdeu tudo as coisas, né?

Mãe – Perdeu o quê, meu filho?
Nilson – As coisas, né?

Mãe – Não perdeu nada, a casa tá paga em dia, o terreno tá pago em dia. Vocês não tinham dívida, meu filho. Não faltava nada. Você sempre foi um homem trabalhador. Ela era uma menina de juízo. Sempre trabalhou na vida. Perdeu o quê? Algum documento que você quer falar?
Nilson – Não, mãe.

Mãe – Você não lembra de nada?
Nilson – Não.

Mãe – Você estava lá dentro do quarto com elas mortas e a mãe não sabia de nada. Se a mãe olha pra baixo, ia ver a Tatiana. O que deu na tua cabeça, meu filho? A mãe vai te entregar na mão de Deus. É o único que pode te ajudar agora. A mãe não tem mais nada que pode fazer fazer pra você. Um homem de respeito. Nenhum vizinho tinha queixa tua. Toda vida foi trabalhador. Um leão para trabalhar. Os colegas teus lá da Circular foram lá no velório. Ficaram bobos de saber que você tinha feito aquilo. O que deu na tua cabeça, meu filho? Fala pra mãe.
Nilson – Eu não sei, mãe.

Mãe – Não sabe? Você não bebe. Você não usa drogas. Você não usa nada…
Nilson – Droga eu não uso, não.

Mãe – Não. Toda vida você foi contra seu irmão que morreu e usava droga. E agora, meu filho Quantas vezes eu pedi pra te internar. Ela tinha dó. Ela dizia que amava você. Ela cuidou de você como um bebê. Ela foi uma santa pra você. Ai, meu filho, até agora a mãe não tá compreendendo nada.

Diário – Vocês brigaram naquele dia?
Nilson – Não, não chegou a brigar, não.
Delegado – Você lembra qual remédio você tomava?
Nilson – Eu sempre tomei remédio.

Delegado – Mas qual remédio você tem de tomar, qual o horário, você lembra?
Nilson – Eu não.

Delegado – Que médico você ia?
Nilson – Doutor Chadad.
Delegado – Despede dele senhora, vamos guardar ele. Dá um abraço nele.
Nilson – Bênção, mãe.
Mãe – Deus te proteja, meu filho.

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Graziela,

É dificílimo realizar uma reportagem como a que nos apresentou: “Perdeu tudo as coisas, mãe”.  Ao invés do jornalismo histriônico e fútil diante do tema, você nos apresenta uma face aterrorizante do drama humano.  Após a tragédia, o fato é a dor que ela transpira. Fez-me lembrar da canção “Notícia de Jornal” de Luiz Reis e Haroldo Barbosa: “Ninguém morou na dor, que era o seu mal. A dor da gente não sai no jornal.”.  Ou de alguma cena emocionalmente impactante de Shakespeare. Parabéns também às fotos de Thomaz Vita Neto e à edição fotográfica os quais, em si, deram à página do Diário uma crônica dramática com começo, meio e fim.
Abraço

Romildo Sant’Anna

Órfãos do Bolsa Família

janeiro 25, 2010 -

Ela trabalhou desde os 8 anos em olarias do interior de São Paulo. Calcula que foram mais de 30 nessa condição. Nunca teve carteira assinada. Agora, aos 49, a dona de casa Aparecida Donizeti Pereira não tem qualquer renda fixa. O marido, que fica numa cama o dia todo por causa de um derrame, não consegue se aposentar.

Seu filho mais novo, Nelson, 14, é bom aluno e quer ajudar no orçamento, mas não sabe como. Embora a casa de tábuas da família seja enfeitada com fotos em tamanho real dos craques Ronaldinho e Robinho, Nelsinho não tem ilusões. Diz que está cansado de aprender capoeira e dança de rua nos projetos que a prefeitura mantém no bairro Santo Antônio, onde moram. “Queria alguma coisa que me ensinasse a trabalhar.”

A única renda que a família possuía, cerca de R$ 120 do Bolsa Família, foi cortada no segundo semestre do ano passado. “Fiquei sem nada. Agora só conto com  a ajuda de vizinhos”, diz dona Cida. A filha Nádia, de 15, está grávida de seis meses. Desde que descobriu que vai ser mãe, deixou de frequentar a escola.

“Ela ficou com vergonha dos colegas”, justifica a mãe. Nádia perdeu o ano letivo. Seus planos a partir de agora são criar o filho, arrumar um trabalho durante o dia, e voltar a estudar à noite. Coisas simples para um filho de classe média, mas que talvez nunca cheguem para quem vive nessas condições, nesse país.

PS – Conheci uma parte da família de dona Cida quando fazia matéria sobre o corte de benefícios do Bolsa Família. Dessa vez, foi para quem não cumpriu com a frequencia escolar exigida pelo programa. Fomos direto ao bairro Santo Antonio. Na primeira casa que batemos, um vizinho nos falou dela.

Nelson e dona Cida: sem renda (Foto: Tomaz Vita Neto/Diário da Região)

Poeira

janeiro 21, 2010 -

Desde o temporal de segunda-feira, que literalmente destruiu uma das principais avenidas de Rio Preto, causou duas mortes e muitos outros estragos, não choveu mais na cidade, com exceção de uma garoa fina na manhã de ontem. Agora, com o sol forte, a lama está dando lugar à poeira. Quem mais sofre são os que andam a pé por aí. Estou entre esse grupo, claro. Amanhã escrevo mais. Boa noite.

Menor infrator e a esperança de dar a volta por cima

janeiro 17, 2010 -

“Eu achava que no crime ia ter uma condição melhor, mas agora coloquei a mente no lugar. Quando sair daqui quero trabalhar, formar uma família, criar meu filho.”

Semana passada, fui até a Fundação Casa ouvir histórias de internos. O depoimento acima é de um deles. D. tem 15 anos, começou a traficar aos 12. Usava crack. Foi internado por tentativa de homicídio. Está na Fundação Casa há seis meses. Dia 30 completará 16 anos. Um dia antes, Vinícius, seu filho, fará um mês de vida. 

Depois de conversar com ele e mais dois internos, saí de lá incomodada, triste. Mais tarde, falei com o sociólogo José Reis dos Santos Filho, da Unesp, que explicou os motivos dos meus sentimentos. “As políticas públicas não oferecem condições para que o ex-interno dê a volta por cima. A sociedade é incapaz de oferecer horizontes para essa garotada a curto, médio e longo prazo. Cada um de nós tem sua resposnábilidade e precisamos assumir isso.”

Tempo

janeiro 9, 2010 -

Quando era adolescente passava horas trancada no quarto desenhando e queria ser cartunista. Cresci e  deixei a idéia de lado. Fui ser repórter.

Hoje me espanto com alguns colegas que se consideram seres superiores só pelo fato de serem jornalistas, me entristeço com ambientes e pessoas tão competitivos dentro das redações. Acho que idealizei demais a profissão. Tenho saudade do tempo em que eu apenas queria ser.