Archive for novembro \22\UTC 2009

Conversa

novembro 22, 2009 -

Sentado na ponta da mesa, soltando baforadas de seu cigarro de palha, ele me olhou nos olhos e não mediu palavras: “Não casa não, fia. É melhor ficar solteira. Se um dia você precisar de alguma coisa, pede pro seu avô.” 

Mais de dois anos se foram, ainda não o contrariei, tampouco tenho planos a respeito. Também não precisei recorrer à sua ajuda, mas ainda guardo bem os dizeres.

Não me recordo o motivo da conversa ter chegado a esse ponto naquele dia. Seja como for, não é qualquer um que tem o prazer de ter um avô tão desapegado das convenções sociais. O meu é assim.

Ela e os cachos

novembro 19, 2009 -

Encantamento e repulsa se misturaram em relação a ela nos três anos que morei em Palmas e fomos colegas de trabalho no Jornal do Tocantins. Sempre altiva, com seus longos cachos e suas pulseiras indispensáveis, sentámos lado a lado nos meus primeiros meses de redação. Isso de certa forma fez com que eu entrasse um pouco no seu mundo, e fizesse uma leitura bem particular a seu respeito.

Ficava impressionada com seu jeito mandão ao se dirigir a Luiz Armando, editor de política e meu guru na época. Quando passei a escrever em economia, ela editava a página Últimas Notícias, disputada entre todas as editorias. Eu vibrava quando conquistava aquele espaço, mas brochava quando imaginava que para ela tudo se resumia a um número X de toques e ao horário que eu iria entregar a matéria.

Ao mesmo tempo, o jeito de menina de família criada no interior paulista saltava aos olhos e virava a imagem mais real de tudo aquilo que eu tinha deixado para trás. Estava ali, ao meu lado, todos os dias, e passou de certa forma a ser minha referência, ainda que de forma velada.

Várias vezes, em época de chuvas, a via descer do ônibus que parava em frente ao jornal com um charmoso guarda-chuvas, o que para mim lhe dava mais graça. Gostava quando ela aparecia com seu Adidas de couro preto e branco na redação, e de vez enquando falávamos sobre amenidades. Ela reclamava do trabalho para manter seus cachos, e elogiava a praticidade dos meus cabelos lisos, que na época eu mantinha curtos.

Passados oito anos de tudo aquilo, a durona ficou pra trás. Chegou a me constranger uma vez, já em Rio Preto, em que resolvi mostrar-lhe um email de um ex-namorado. Ela caiu em lágrimas no meio da redação. Enquanto lia e enxugava as lágrimas, eu em pé ao seu lado, arrependida por ter causado aquilo, não sabia como agir.

A menina virou mulher e quando ela chega com seus olhos enormes, cílios compridos, e vem me abraçar, o sentimento é de paz. Para meu encantamento maior, depois de um período mantendo os cabelos lisos, recentemente os cachos voltaram e pude tornar a admirá-los.

O café da Dedé

novembro 4, 2009 -

Ficar hospedada na casa de Débora e não tomar de seu café reconfortante virou algo inconcebível para mim. Na última vez que estive em São Paulo,  passei silenciosos minutos de desespero num dia em que ela acordou atrasada e por falta de tempo quis abortar o café. Sem reação, tentei agir com naturaliade, mas me limitei a ficar calada para não interferir no dia-dia da anfitriã.

Em outra ocasião, havia acabado de chegar de viagem e Débora me esperava com um discurso pronto. Cumprindo seu papel de amiga, me deu conselhos, um tanto ríspidos. Nada que tenha me abalado. Enquanto Débora falava com seu jeitão peculiar, eu servia satisfeita algumas canecas do café que ela acabara de passar.

Certa vez, num domingo, ela resolveu me explicar o processo. A quantidade de pó certa, mexe aqui, mexe ali… Ouvi atenta, mas nunca arrisquei – aquele café é ela. Sua voz rouca, os gestos lentos, meio sonolenta na cozinha apertada a procura de uma colher. A camiseta de dormir com as coxas grossas à mostra, um pouco da ressaca da noite anterior… tudo é parte dela, e o resultado, dos deuses.   

Aos amigos que ainda não tiveram a mesma sorte que eu, a dica: a qualquer hora do dia, como quem não quer nada, visitem Débora e Tatau com um saquinho de pão francês embaixo do braço. Será café na certa.

Uma velha rua

novembro 2, 2009 -

A rua Curitiba, linha divisória entre a Vila Mota e o Higienópolis, foi uma área de comércio próspera nos anos 80. Endereço de alguns pontos que marcaram minha infância, ela comportava o supermercado onde eu buscava guaraná Devito, fabricado na cidade e mais doce que as outras marcas, o bar que vendia os suspiros cor-de-rosa e os guarda-chuvas de chocolate que eu escolhia através do vidro, e o “João da farmácia”, onde por vezes tive o dissabor de tomar injeção.

Era também em algum lugar da Curitiba que meu bisa – o vô Grandão – comprava os picolés de abacaxi com os quais eu me deliciava (até hoje não entendo essa preferência de infância – talvez naquela época picolés de abacaxi tivessem outro sabor).

E numa travessa dela, na 14 de abril, ficava a “máquina de arroz” do seu Tonico, meu avô. Além de cereais a granel, o estabelecimento oferecia de lambuja a boa prosa do vô Ico. “Agradecemos a preferência”, sempre lia intrigada a frase, que ilustrava os saquinhos de papel pardo guardados nas prateleiras do velho balcão e que embalavam a mercadoria.

Nos anos 90, a Curitiba começou a entrar em decadência. Com pouco movimento, seu Tonico fechou a máquina de arroz e trocou de endereço. Voltou às origens e foi morar num sítio. O supermercado fechou as portas. O João da farmácia e a loja da Dalva são alguns dos pontos que resistiram. Houve época em que os vira-latas eram os principais frequentadores das tardes da Curitiba.

Porém, nos últimos tempos, a via começou a se reerguer. Apareceu quem assumisse o ponto, e o supermercado reabriu. Sorveteria, casa de ração, ótica, casa lotérica. Uma rede de farmácias também se fez presente e arrebanhou parte da clientela do João da farmácia. Uma casa de frios, um açougue, e o mais inusitado para quem cresceu nas redondezas e conhece o bairro – uma movimentada academia, com portas de vidro e esteiras voltadas para a rua, o que possibilita ao humilde pedestre observar quem se exercita lá dentro.