Archive for outubro \30\UTC 2009

Anônimo, ou “o homem da laranja”

outubro 30, 2009 -

“Laraaaanjaa… Olha a laraaaanjaaa…. Laraaanja pêra, laraaanja lima… Laraaanjaaa…”

São cerca de 7h30 na Vila Mota. Embora estejamos no horário de verão, o sol é escaldante lá fora. A rua está deserta e ele, com sua carriola carregada de laranjas, é o dono.

Vai meio em zigue-zague, na rua… De vez enquando avista um carro, desvia a direção. E continua: “Laraaaanjaa… Olha a laraaaanjaaa…. Laraaanja pêra, laraaanja lima… Laraaanjaaa…”

O som da carriola intercalado com o de seus passos é inconfundível, e os dois misturados com os gritos do anúncio da laranja soam como uma música. Sim, uma velha música que ouvia no passado, e que desde que voltei a Catanduva passa pela minha janela nas manhãs, bem cedinho.

“Laraaaanjaa… Olha a laraaaanjaaa…. Laraaanja pêra, laraaanja lima… Laraaanjaaa…”

Curiosa, hoje não resisti. Pulei da cama e fui até a janela. Abri só uma fresta. Não queria que ele perdesse seu tempo pensando que eu fosse alguém interessado na mercadoria. Ouvi os passos mais perto, a carriola que vinha…

Abri mais um pouco a janela. Uns instantes se passaram e ele apareceu. Boné afundado no rosto, camiseta branca e calça jeans, com menos idade do que na imagem que eu tinha criado sobre “o homem da laranja”.

Agora vejo os passos, a carriola, e o dono da voz, que seguem em compasso, desafiando o sol e o asfalto quente.

O radinho ali

outubro 29, 2009 -

A saudade de redação de jornal diário aperta e dia desses brinquei com meus botões de recordar de figuras marcantes que conheci nesse ambiente. Brandino Gomes, um mulato esguio, olhos esbugalhados, cabelos grisalhos e brincalhão, que do alto dos seus 50 e poucos anos todos os dias beijava minha mão e me pedia em casamento, foi uma dessas. Fiel escudeiro, o radinho de pilha o acompanhava da hora em que colocava o pé na redação até à noite. Minha baia ficava próxima à dele, e, por tabela, o som do radinho também se tornara meu companheiro.

Era junho de 2006, e toda a redação havia sido convocada a escrever artigos semanais sobre a Copa do Mundo. No meu primeiro texto, não hesitei – ainda que como coadjuvante, encaixei o radinho lá. Brandino após ler retrucou: “você falou do meu radinho, é?”. Na semana seguinte não tive como evitar – o radinho abriu meu artigo.  

Reproduzo os dois textos aqui como foram publicados. Salve Brandino!

No inferno da Copa

Por Graziela Delalibera

Mal terminou o confronto que resultou em 2 x 0 para a Inglaterra contra Trinidade e Tobago, agora estamos aos 13 minutos do primeiro tempo entre Suécia e Paraguai. Entro no site da Fifa para ver se tenho alguma “iluminação”. Lá está: “último jogo desta quinta-feira”. Ufa, que bom!— penso com meus botões.  

“Robinho avisa que está pronto para entrar no time e jogar bem”, diz uma das notícias sobre a seleção brasileira.

Espero que Robinho seja melhor iluminado.

As duas TVs da redação estão sintonizadas no jogo. O volume no mínimo, mas ouço involuntariamente a narração por outro meio— um rádio ligado bem ali.

Essa vai ser minha sina até o dia 9, data da grande final.

“Vai entrar no nosso bolão? São dois reais.”

“Não, obrigada.”

Abro o e-mail: última chamada para o bolão.

Mais uma vez: quem quiser participar tem até amanhã às 11h.

*&%^ quanta insistência! Em seguida: resultado do bolão, R$ 40 para cada um dos três ganhadores.

São 15h30 da terça-feira, dia 13. “O fulano está?”, pergunto para o solícito atendente. “Não, ele já saiu para assistir ao jogo, mas vou encontrá-lo daqui a pouco, quer que eu peça para ele te retornar?” Acho inútil dizer que sim, mas digo, just in case…

Lá vem a Dani: “Vamos colaborar com R$ 1. Pipoca e coca-cola para quem for assistir o jogo aqui na redação.”

Voltamos ao feriado de Corpus Christi em frente ao computador. Olha eu no site da Fifa mais uma vez. Link para a entrevista de Paulo Coelho:  “O futebol une o mundo”.

Do outro lado da redação, ouço nosso editor de Esportes arriscando o resultado do próximo jogo do Brasil. Putz, hoje ainda é quinta Ferri. Ow my, vai começar tudo de novo.

“Prefeitura altera horário em dias de jogos da Seleção na Copa”. Recebi esse e-mail na segunda.

“Se está no inferno, abrace o capeta.” Nisso eu pensei agora.

Dani, acho que participo do próximo bolão.

Graziela Delalibera é jornalista, palmeirense e sofredora.

França de Zidane

Por Graziela Delalibera

O radinho continua ligado. França acaba de fazer seu terceiro gol contra a Espanha. Gol de Zidane. Leitores, me perdoem. Torço por ele. Que se aposente com toda a pompa merecida.

“Brasil vence Gana, espanta a zebra e enfrenta a França de Zidane.” São 17h52 e essa frase acaba de entrar no luminoso do BOM DIA. A página 5 já está fechada. Sentimento de trabalho concluído por hoje, se não fosse esse bendito artigo.

França de Zidane…

“Com esse resultado ele vai ser eleito presidente no país dele, não é Graziela?”, brinca um colega. A afirmação é em referência à descendência do atleta.

Filho de imigrantes argelinos, Zidane promove a tolerância racial e regiliosa e escolheu encerrar a carreira depois desta Copa. Com dois gols na partida contra a Espanha, a sensação de trabalho concluído deve ter em parte tomado Zidane.

Com os dois gols, no entanto, ele deu ao Brasil a oportunidade de ir à desforra no sábado. Também foi com dois gols que Zidane ajudou a sagrar a França campeã da Copa de 98 na final contra o Brasil.

“Grazi, só estou por você”, me alerta o editor de esportes. %#@&! Hoje está difícil Ferri.

França de Zidane… Na final de 98, eu estava numa de minhas incursões pelo Nordeste. Recém-formada, meu endereço era em Barra do Cunhaú (RN), no restaurante Punto Massimo, onde trabalhava.

Quando lá cheguei, não imaginava que fosse passar a final da Copa servindo as mesas. Menos ainda que no restaurante fosse conhecer o historiador Lelé Arantes, que naquele ano escolheu Cunhaú para passar as férias.

Quando cheguei em Cunhaú, fui muito bem recebida pelo casal Adélia, rio-pretense, e Massimo, italiano. Porém, logo eles tiraram a TV que ficavam no meu quarto e trouxeram o aparelho para o salão do restaurante.

Da partida final, pouco me recordo. Os clientes torcendo e a movimentação da cozinha estão mais frescas na memória.

Depois da Copa, fui embora de Barra do Cunhaú.

No sábado, Brasil e França se enfrentam novamente. E eu, espero voltar a Barra do Cunhaú.

PS1 – O segundo artigo, sobre Zidane, foi antes da “cabeçada”. De todo jeito, todos estamos sujeitos a um dia de fúria…

PS2 – Ainda sobre o segundo artigo, já estive bem próxima, quase fui, mas ainda não voltei à Barra do Cunhaú

Ps3 – No mesmo artigo, o colega mencionado, adivinhem… é Brandino. Enquanto eu sofria para fazer o texto da Copa sair, ele veio sorrindo em minha direção, com uma de suas páginas revisadas cheias de rabiscos vermelhos numa das mãos, e com seu comentário me ajudou a clarear as idéias