Archive for junho \18\UTC 2009

Um dia de uma CPI

junho 18, 2009 -

Aproveitei ontem para acompanhar um dia no caso que ganhou destaque nacional no início do ano, o da existência de uma suposta rede de pedofilia em Catanduva, e por tabela rever alguns colegas de profissão. Dessa vez, doze crianças participaram de uma nova sessão de reconhecimento com 12 suspeitos, na DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Rio Preto, acompanhada pelo Gaeco (Grupo Especial de Repressão ao Crime Organizado) e pela CPI da Pedofilia.

No total, o Gaeco investiga suposto abuso sexual contra 47 crianças. A sessão começou às 10h e terminou por volta das 16h. Jornalistas deram plantão em frente à DIG o dia todo. As crianças chegavam em grupos  no carro da Promotoria e logo após o reconhecimento já retornavam a Catanduva. A cada movimentação, os colegas se dividiam entre as portas da frente e a dos fundos da DIG.

A maior expectativa era com relação a um médico e a um empresário de Catanduva investigados pelo Gaeco que estavam na sessão. Advogados se desbobraram pouco antes do início do reconhecimento para que eles não fossem fotografados, formando uma barreira com paletós e pastas enquanto os suspeitos passavam pelo corredor em frente à porta da delegacia. Ao final, os dois saíram encapuzados pelos fundos. 

Os advogados José Luiz Oliveira Lima, do médico, e Adriano Salles Vani, do empresário, foram os primeiros a falar com a imprensa após o reconhecimento. Ambos disseram que seus clientes não foram reconhecidos pelas 12 crianças. Porém, uma mãe que falou com jornalistas disse que o médico teria sido identificado por sua filha. O promotor João Santa Terra não quis revelar quais nem quantos suspeitos teriam sido reconhecidos. 

Enquanto Santa Terra dava entrevista, uma moradora de rua viciada em crack que passou boa parte do dia em frente à DIG falando alto e atraindo a atenção dos jornalistas ganhou a cena por alguns instantes: se aproximou e esticou a mão, pedindo “um real”. Ele chegou a hesitar por um momento, e logo retomou o raciocínio. 

Outra figura que passou o dia no local foi o americano Richard Pedicini, que foi preso e inocentado no caso da Escola Base, de 1994.  Agora, ele ocupa parte de seu tempo a investigar por conta própria casos de pedofilia, e reclama da imprensa brasileira. Tinha chegado a Catanduva no dia anterior para iniciar o trabalho, e disse que foi coincidência. Ontem, ficou na cola dos jornalistas e a certa altura conseguiu incomodar.  

O presidente da CPI, senador Magno Malta, deixou a sala de reconhecimento por volta do meio-dia para  dar entrevista ao vivo à uma TV. Naquela hora, duas das doze crianças tinham passado pela sessão. Ele lembrou que o trabalho era feito na DIG em Rio Preto para evitar a exposição das vítimas.

No fim da tarde, falou mais uma vez com a imprensa e disse que a CPI votará terça-feira requerimento convocando o médico e o empresário a prestarem depoimento em Brasília. Ele encerrou a entrevista com o seguinte: “se existe criança abusada, existe abusador. Nenhuma criança é abusada por osmose”.

Colega de "O Regional" tenta fotografar suspeitos entre paletós

Colega de "O Regional", de Catanduva, tenta fotografar suspeitos entre paletós

Repórter Thiago Ariose, da TV TEM, espera

Repórter Thiago Ariose, da TV TEM, espera

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A mais bonita

junho 15, 2009 -

Domingo à noite, família reunida em torno da mesa. Sopa de capeletti para combinar com o frio. Parmesão ralado, pão francês, vinho tinto seco. Foi assim que cheguei aos 35. Bem melhor do que tinha programado durante todo o mês de maio – até semana retrasada, era escalada para trabalhar no plantão do feriado de Corpus Christi.

Agora, chego à idade nova sem trabalho, relacionamento, filhos, ou grandes histórias para contar. Talvez o lado bom seja a possibilidade de o novo entrar.

Minha avó sentada numa das pontas da mesa, a certa altura o assunto gira em torno de tia Isaura, casada com um mulçumano. Tio Abdo criou dois filhos com seu box no mercado municipal – Jamil, médico, e Jamila, jornalista. Eu era menina e quando ele aparecia com seu bigode farto e careca lustrosa tudo ficava perfeito, no seu devido lugar.

– Essa é a menina mais bonita da cidade. Pode procurar que não vai achar igual – repetia sempre, ao me ver. Eu acreditava no discurso de tio Abdo, e sabia de cor.

Descobri que nos últimos tempos dificilmente seu velho Fusca sai da garagem, e que as meninas mais bonitas são minhas sobrinhas.

Reinventando

junho 12, 2009 -

Amigos, hj faz uma semana que fui desligada do Bom Dia, junto com outros 15 colegas, depois de quase 4 anos de casa. Após ter ficado um tempo sem dar as caras por aqui, talvez digerindo a idéia, volto pra desovar algumas coisas que acabaram esquecidas e que valem ser registradas neste blog.

A primeira história é a da aposentada Ondina Rodrigues, 74 anos, que desde 1985 dedica sua vida a amenizar a dor do próximo, com sua farmácia comunitária, em Sorocaba. Numa tarde do mês de maio, ela ligou na redação pedindo ajuda.

– As doações não estão chegando. Acho que é a crise… e é tão triste quando alguém volta para casa sem o remédio. Só hoje já foram três pessoas.

Dona Ondina com seu sorriso, e sua farmácia (Foto: Teylor Soares)

Dona Ondina com seu sorriso, e sua farmácia (Foto: Teylor Soares)

A trajetória de dona Ondina com sua farmácia começou quando ela resolveu organizar uma caixa com remédios para uma vizinha doente que era analfabeta. De lá para cá, não parou mais e hoje atende a uma média de 900 pessoas por mês, sem qualquer tipo de distinção – “remédio tem prazo de validade, por isso não olho classe social”.  Basta apresentar a receita. Com tanta popularidade, a aposentada faz questão de assinalar que não autoriza ninguém a pedir remédios em nome dela.

Dona Ondina recebe doações do país inteiro. Ela guarda as mensagens que chegam com os remédios numa pasta, junto com recortes de jornal sobre o seu trabalho. A farmácia fica num cômodo que foi reformado nos fundos de sua casa, e na frente ela mantém um brechó, onde vende peças de roupas para ajudar a pagar as despesas.

 Quem quiser colaborar com a farmácia, deve ligar para (15) 3233-7446 .

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Nerli Peres perdeu uma filha vítima de leucemia, e então passou a auxiliar pessoas com a doença, por meio do trabalho na ONG Asa Morena. Tive contato com ela no dia em que comemorava o anúncio da implantação do banco de doadores de medula óssea no Hemonúcleo de Sorocaba.  

Ela explicou na ocasião que mais de 60% dos pacientes com indicação de transplantes não possuem doadores compatíveis na família. Então, é preciso buscar doador compatível no Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea). Atualmente, a chance de encontrar um doador compatível no registro brasileiro, que não seja parente é, em média, 1 para 100 mil. Nerli me encaminhou o texto de um folheto produzido pela ONG. Vou colar aqui. É bastante esclarecedor e vale dar uma conferida:

Dúvidas em relação à doação e ao Transplante de Medula Óssea

– No momento da inscrição, já faço a doação da minha medula?

Resposta: Não. No momento é preenchida uma ficha com os seus dados e coletados 5 ml de sangue.

– Tomei bebida alcoólica ontem ou no dia, posso me inscrever?

Resposta: Sim. O sangue será utilizado apenas para o exame de tipagem. O resultado ficará armazenado no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea, que faz parte de um banco mundial.

– O que é preciso para me inscrever?

Resposta: Ter entre 18 e 55 anos, levar RG, preencher uma ficha e coletar o sangue.

– Se doar agora e futuramente um parente meu precisar, poderei doar novamente?

Resposta: Sim, a medula óssea é reconstituída em pouco tempo. Ou seja, pode ser doada quantas vezes for encontrado alguém compatível.

 – Medula Óssea é igual a Medula Espinhal?

Resposta: Não. A medula óssea é a fábrica do sangue e se concentra na cavidade dos ossos, sendo mais ativa no osso da bacia. É composta essencialmente pelas células-mãe, responsáveis pela fabricação dos vários elementos do sangue. É, a grosso modo, como o tutano do osso do boi.

 – Ao doar, corro o risco de ficar paralítico?

Resposta: Não. Não há registro de incidentes com o doador.

 – Quais doenças são proibitivas para a inscrição como doador?

Resposta: Aids, Câncer e Hepatite C. Portanto, Hepatite A e B, pressão alta, diabetes, entre outras, não inibem a inscrição.

 – Se já sou inscrito preciso me inscrever novamente?

Resposta: Não. Uma vez inscrito, seu registro ficará no Redome até que atinja 65 anos de idade, quando é automaticamente excluído do cadastro. É fundamental manter sempre os dados atualizados, para que possibilite sua localização caso você seja compatível com algum paciente.

– Tem algum tratamento alternativo para o paciente que precisa de transplante?

Resposta: Quando o paciente precisa do TMO, é porque já passou por todos os tratamentos clínicos. O transplante somente é indicado quando não existem mais alternativas, ou seja, é a única chance de vida. 

– Se eu for doador, se for compatível com alguém, como é o transplante?

Resposta: Há dois procedimentos:

Por punção no osso da bacia: feito em centro cirúrgico, dura aproximadamente 40 minutos e a anestesia é a peridural ou raqui. O doador tem alta no dia seguinte e pode sair dirigindo seu próprio carro, se for o caso. Por dois a três dias, sentirá leve dor, controlada com analgésico simples.

Por punção de veia periférica: como na doação de sangue. O doador recebe uma medicação 5 dias antes do transplante, para incentivar o amadurecimento das células-mães, que migram da medula óssea para o sangue, onde já estão  em pequena presença. Esse procedimento dura de 4 a 5 horas. O sangue vai sendo filtrado e separado. São coletadas somente as células-mãe (seu sangue continua com você). São retirados 10% da capacidade do doador e a medula se regenera totalmente em apenas 15 dias.

– O que determina a escolha do procedimento em que se dará o transplante?

Resposta: A equipe de transplante avalia a doença e o estado geral do paciente. De acordo com essa avaliação é feita a escolha do método mais seguro e com maior chance para o paciente