Ao gordo, o gol

janeiro 14, 2014 -

Ele era gordo e ruim de bola, por isso foi colocado no gol. Acabou descobrindo que era bom no gol por causa do handball, esporte que costumava jogar na escola. Então ficou motivado, e decidiu treinar futebol de verdade.

Fez o pai lhe inscrever numa escolinha, lugar onde ele podia treinar dois dias na semana. Mas frequentava dia sim, outro também. Além de jogar bola, o menino queria emagrecer.

Com o tempo, de gordinho passou a ex-gordinho. Entrou com 93 quilos na escolinha de futebol e, um ano depois, o máximo que a balança alcançava quando ele subia eram os 69.

São-paulino, se inspirava no goleiro Zetti, do tricolor paulista, que também fora gordinho na infância. Assim como o jogador, queria um dia ser profissional. Era o sonho de toda criança na época, diz ele, que acredita que as crianças de hoje sonham com outras coisas. “Hoje tem muito mais coisas pra fazer! Antes só jogávamos bola, fazíamos esporte. Até no videogame era o futebol.”

O menino, realmente, se existir a palavra, era um “multiesportista”. Junto com o futebol, fazia judô e musculação. Depois de três anos na escolinha, já com 16, percebeu que não tinha nascido para ser um craque da bola, e ficou só com as artes marciais.

Curioso mesmo foi uma época anterior a essa, por volta dos 12, em que foi viciado em patins, aqueles tipo roller. Ele era um menino com “pés de patins”, pois quase nunca os tirava. Talvez para dormir, quem sabe.

Também era comum nessa mesma época ele substituir os patins por outro tipo de calçado – a botinha de gesso. Como vivia a brincar pelas ruas, vira-e-mexe o menino se machucava, e com a mesma rapidez com que procurava atendimento médico, resolvia que estava curado e arrancava a botinha por conta própria.

É hiperativo! – sentenciariam hoje a respeito do menino. Vinícius é o nome dele, meu irmão mais novo, que veio ao mundo quando eu estava com 8 anos. Agora adulto, ele não tem mais tempo para a bola, os patins e o quimono, mas continua fã do Zetti, e joga videogame com o filho.

Seu Gilberto, o andor, e a camisa cor de abóbora que a vida escolheu

novembro 8, 2013 -

Minha mãe é o tipo de pessoa que consegue encontrar humor em qualquer situação. Imagino ter herdado essa característica de seu pai, o velho vô Juca, que partiu há mais de 20 anos. Tenho a impressão que tal comportamento, algumas vezes, pode flertar com a crueldade, mas não é disso que vamos tratar aqui.

Não faz muito tempo, minha mãe resolveu me contar, entre várias risadas, como ela e meu pai se viram pela primeira vez.
Eles tinham 16 anos. Era dia de procissão na cidade, e meu pai estava numa situação pouco, ou quase nada, confortável. Enquanto dona Merce, magrela e espevitada, assistia o cortejo rodeada de amigas, seu Gilberto, também esguio, mas um garoto introspectivo, carregava o andor nos ombros, com meu avô Tonico do seu lado, e meu tio Zé, o irmão do meio, logo atrás. Não me perguntem qual santo eles carregavam, nem quem completava o quarteto. Tampouco sei se meu pai fazia aquilo de gosto, ou pressionado pela família. Acredito, porém, que a segunda alternativa seja a mais verossímil.

Todos esses detalhes teriam passado despercebidos para minha mãe, que de longe ficava na ponta dos pés para avistar os fieis, se naquele dia meu pai não tivesse saído de casa com uma camisa cor de abóbora, talvez beirando o fluorescente.
Era algo incomum para a época, e aos olhos da Merce adolescente aquela atitude pareceu, de certa forma, uma transgressão, mesmo que ela não conhecesse a palavra.

“Seu pai era muito moderno e aquela camisa chamou minha atenção. Só dava ele. Teus avós eram muito católicos”, lembrou, se divertindo com a história. Sei que de longe, naquele dia eles trocaram os primeiros olhares, e da camisa cor de abóbora ainda vibrante na memória foram 46 anos juntos. Dois temperamentos difíceis, que à maneira deles sempre se entendiam, se amavam, até a vida decidir que não estava mais para brincadeira.

Daqui a dois dias, serão seis meses sem meu pai – sem o “bem” que desde sempre ouvi sair das bocas que me criaram, sem o “bem” que ela gritou aos prantos movida pela maior dor do mundo quando soube que ele nunca mais voltaria do hospital para casa.
Diante de dor tamanha, sem o nosso “bem” de toda a vida, penso que o mundo deveria parar, deixar tudo em suspenso, poupar-nos, uma vez que é impossível estar preparado para algo dessa dimensão.

Hoje, dona Merce faz aniversário, 62 anos, mesma idade que seu Gilberto teria completado no dia 8 de setembro passado. A vida é mesmo pra valer, e agora sofro pensando no que dizer a ela.

Pequeno torcedor

novembro 8, 2013 -

Descobri dia desses conversando com um casal de amigos que pais de hoje em dia têm uma nova missão – estabelecer critérios para filtrar o que expõem de seus filhotes nas redes sociais.

Curioso é constatar que os pequenos são justamente um capítulo à parte nesse universo que nos chega pelo computador e smarthphones, junto com bichos, comida, e jardinagem.

Ora estão na piscina fazendo farra num domingo de sol, ora com a cara toda suja de papinha numa segunda-feira, divertindo-se no aniversário do amiguinho, brincando com o cachorro, dormindo, desenhando.

Confesso que às vezes me surpreendo. Fui cativada à distância pela filha de um primo de terceiro grau, depois de vê-la num vídeo, compenetrada, tendo uma conversa fictícia com a avó. “Alô? Vovó? Comeu tudo o arroz e o feijão?”, dizia. Depois disso, cheguei a me pegar num domingo acompanhando uma festinha de criança praticamente em tempo real, pelas fotos que o pai da pequena postava. Me divertia com suas descobertas. Dia seguinte, vi que a menina tinha terminado seu dia numa grande piscina, com boias coloridas nos braços.

Percebo que os pais familiarizados com as palavras às vezes saem na vantagem diante dos demais. Relatos emocionantes podem surgir, como os que envolvem Yuri, filho do casal Júlio Garcia e Ayla Farias. Leitura obrigatória se aparecem na tela. Raramente vejo algum vídeo desse pequeno, mas teve uma ocasião em que ele deu mais vida à minha tarde: apareceu cantando “Foi um rio que passou em minha”, de Paulinho da Viola.

No retrato que estampa o Facebook do pai, lá está Yuri todo sorridente com a camisa do Corinthians, time de Júlio, que o segura no colo também vestindo o uniforme do Timão. Já no canal do Youtube, Yuri aparece cantando o hino do Fluminense vestido a caráter. Esse é o time da mãe.

Parece que em horas como essa, pais não se importam com os filtros. Bom mesmo é mostrar a cria na mesma torcida, ainda que ela faça isso só para agradar.

Dia de confraternização

novembro 8, 2013 -

O jornalista e colega de trabalho Carlos Eduardo de Souza, o Carlão, durante alguns anos nunca falhava na casa do saudoso Edson Baffi em dias de jogos do Santos. O local virava ponto de confraternização quando o Peixe entrava em campo, e ao lado desses dois, o filho mais novo de Baffi, Guilherme, completava o trio fanático pelo alvinegro praiano. Edinho, o filho do meio, que não mora em Rio Preto, às vezes se juntava à patota.

Com os pés fincados na sala da casa espaçosa do Anchieta, lá eles riam, choravam, se abraçavam; às vezes se despediam cabisbaixos já prevendo as piadas do dia seguinte, noutras felizes como criança. Havia dias que ainda se telefonavam para relembrar o jogo.

A dona da casa, Célia, aproveitava o momento futebolístico para um de seus maiores prazeres – levar suas gostosuras à mesa. Bolos e pão de queijo quentinho sempre surgiam num passe de mágica.

No sofá, enquanto Carlão e Baffinho se importavam mais com o placar e um resultado favorável ao time do coração, Baffi pai apreciava o futebol arte. Adorava a dupla Neymar e Robinho, e viu os meninos conquistarem alguns campeonatos.

Em 2011, na conquista do título da Libertadores, Baffi já não estava mais nesse plano. O santista partiu para sempre em fevereiro daquele ano. A ausência de alguém tão amado fez com que a família se mudasse para um apartamento, e os dias de jogos do Santos ficaram mais apagados.

Carlão chegou a ver algumas partidas ao lado de Baffinho. Uma das últimas vezes que esses dois apaixonados pelo Santos seu reuniram foi na vitória que sagrou o time campeão da Libertadores. “Como meu pai não estava mais aqui, combinamos todos de ir à casa da minha tia Ana, irmã da minha mãe”, lembra Baffinho.

Mesmo com o trio desfeito, Carlão continua a se fazer presente, inclusive com seu humor peculiar. Não perde o costume de ligar, mandar mensagens e e-mails para comentar o desempenho do Peixe e tirar sarro dos adversários.

Essa semana, por exemplo, surpreendeu outra santista, a Liza Mirella, ao enviar-lhe um e-mail com uma foto montada do goleiro são-paulino Rogério Ceni, vestindo uma blusa tomara-que-caia. Sábio Carlão. Isso foi antes da goleada de três a zero a favor do Santos.

Paixão pelo Jacaré

novembro 8, 2013 -

Quando o assunto era seu time do coração, o motorista João Ferreira, o João Cabeça, não poupava esforços. No tempo que trabalhou dirigindo caminhão, não foram poucas as vezes que chegou a pegar fretes de acordo com as cidades onde o Jacaré iria jogar para poder torcer ao vivo pela equipe.

Com fama de briguento, se posicionava sempre diante do alambrado. Gostava de azucrinar o técnico do time adversário, e lá ficava de pé durante toda a partida, incansável.

Esse comportamento de João Cabeça certa vez o colocou em maus lençóis. Ele deveria ter uns 30 e poucos anos e assistia a uma partida entre o Jacaré e o Marília. Como de praxe, gritava no ouvido da equipe rival alguns insultos.

O jogo, aqui mesmo em Rio Preto, terminou a favor do time da casa. Ofendidos com as palavras de João Cabeça, torcedores do Marília decidiram se unir contra ele.

“Naquela época não tinha nenhuma grade que separava as duas torcidas, então o pessoal do Marília resolveu ir atrás dele”, lembra o professor Vitão Natureza, um dos filhos do motorista.

João Cabeça logo percebeu o risco iminente, e saiu em disparada pelas arquibancadas. Encontrou no caminho uma perna esticada de algum espertalhão que queria vê-lo caído. O torcedor rio-pretense não pensou duas vezes – pisou em cima daquela perna que viu pela frente, e foi refugiar-se junto aos policiais que faziam a segurança do campo.

O boato que correu foi de que com o pisão, a perna do homem mal intencionado havia sido fraturada. Para João Cabeça sobraram uns pontos na testa.

O motorista assumia a fama de briguento, e mais velho nunca se acanhou em contar essa e outras histórias de sua trajetória como torcedor fanático do Jacaré. Ele cresceu no bairro onde o time do coração nasceu, e guardava com zelo o uniforme que usou enquanto fez parte do amador do Rio Preto.

Nos últimos tempos, o motorista andou adoentado e estava desgostoso com o desempenho time. Mês passado, descansou para sempre, aos 62 anos. Em seu velório, muitas passagens foram relembradas por amigos e familiares sobre a vida desse torcedor, que além de briguento, todos sabiam ser coração mole, e um grande brincalhão.

Segundo time do coração

novembro 8, 2013 -

Descobri que a certa altura da vida, meu pai, o santista Gilberto, adotou a Ponte Preta como time do coração. Essa passagem sobre sua história foi contada por Felippe Seabra, homem tranquilo, agora de barba e cabelos brancos, casado com a irmã mais nova de minha avó Aurora.

“Você nem deve se lembrar, pois era muito novinha”, disse, na semana em que meu pai nos deixou, há pouco mais de três meses.

Naquela época, seu Gilberto havia mudado com a família para Campinas. Eu deveria ter uns 5 anos de idade, e ele, 27. Recém-chegado à cidade, meu pai era o único sobrinho do pontepretano Felippe a não torcer para o Guarani. De certa forma, tal particularidade fortaleceu a amizade entre os dois.

“Já que andávamos sempre juntos, íamos sempre assistir aos jogos da Ponte Preta, e ele passou a gostar da ‘macaca’, apelido carinhoso da Ponte, e a tê-la como seu segundo time do coração.”

Num dia de derby campineiro, a dupla não se intimidou com a rivalidade, e foi ver o jogo, que era no campo do adversário.

“O espaço que destinaram à torcida da Ponte era insignificante. Entramos lá, e tivemos que pedir licença para poder respirar. Estava insuportável, e ainda na pior localização para se assistir uma partida de futebol.”

Felippe diz que anda meio esquecido, e por isso não se lembra de quem partiu a ideia que deu origem a um ato irresponsável para fugir do sufoco.

“Fomos sentar em lugar privilegiado, dava até para respirar, mas no meio dos bugrinos. Nós sabíamos muito bem do risco que estávamos correndo e prometemos ‘torcer para o Guarani’.”

Acontece que a Ponte jogou muito. Nas palavras de Felippe, “deu um show de bola.”

“Nós xingávamos alto os jogadores da Ponte. Mas sentados, abaixávamos nossas cabeças, olhando um para o outro, e sorríamos, quase a ponto de rir alto.”

Pensei em meu pai com seu sorriso de juventude, se divertindo ao lado de meu tio no meio da torcida rival. “Foi um acontecimento simples, mas que marcou muito a nossa amizade.”

‘Sei não, fia, esse negócio de FIT’

novembro 8, 2013 -

– O que foi o FIT pra você? – a moça pergunta para uma mulher de cabelos brancos presos num coque que passa com uma sacola plástica enrolada a um dos braços.
– FIT? Só vim receber minha aposentadoria…
As duas agora estão paradas no meio do Calçadão. A moça responde à mulher: – O FIT, Festival Internacional de Teatro, tem todo o ano aqui em Rio Preto. A senhora não ouviu falar, não viu nenhuma peça?

– Sei não, fia, esse negócio de FIT. Eu não tenho dinheiro pra ir ao teatro – a mulher fala encabulada, e coça a cabeça.
– Mas não é bem assim, deixa eu explicar: tem muita coisa de graça. E não é só peça, tem palestras, oficinas, muita coisa que estimula a gente a pensar… e não precisa pagar nada. O FIT deste ano terminou ontem, por isso que eu fiz a pergunta.
– Ah, é? Hum… Acho que tô começando a entender o que você tá dizendo… – diz a mulher.

Ela parecia apressada no começo, mas muda de ideia e se posiciona bem de frente para a moça, e continua a falar.
– Olha só… até sei de umas coisas que aconteceram lá no meu bairro e acho que eram desse FIT. Todo dia tinha um pessoal reunido ali na creche fazendo uns exercícios de teatro, ouvi música vindo de lá também.

– Sim, é como se a cidade ficasse dez dias respirando teatro. E olha, quem assistiu a uma peça de Rio Preto, ou infantil, entrou de graça. E teve grupos de fora, de outros Estados e países se apresentando. Teve também muita peça de rua, com teatro nas praças, nos parques…

A mulher dá uma risada.
– Ah, bem que outro dia eu fui comprar uma carne moída pra fazer de mistura e vi um pessoal fantasiado ali na praça em volta de uma caixa de madeira bem grande. Fiquei curiosa, mas tava com pressa pra colocar o almoço no fogo…
– Hum, que pena – diz a moça.

A mulher continua: – Aí, naquele dia mais tarde, meu neto, que tá de férias, me contou que tinha visto esse teatro da caixa. Nem foi jogar bola por isso.
– E ele gostou?
– Fia, não fiquei perguntando, mas pra ele ter deixado o futebol, deve ter gostado, viu. Agora deixa eu ir pro terminal. E ano que vem, se eu estiver ainda aqui na terra, quero ficar de olho nesse FIT.