Não é pelo fato de ser palmeirense que gostava de morar em um prédio verde.
Com suas sacadinhas tímidas, uma fachada sem qualquer pretensão, e, o mais importante, a um pé do centro da cidade, aquele predinho verde era motivo de orgulho e sinal de resistência diante da mesmice monocromática do Centro. Até como ponto de referência ele servia, sempre facinho de achar pela sua cor, de gosto questionável, assumo.
Há algumas semanas, porém, meu endereço começou a ficar meio sem graça. Uma comissão de quatro moradores decretou o fim da identidade do velho predinho verde água da Benjamin. Aguns dias seguidos de várias pinceladas foram suficientes para apagar o que era o único prédio com personalidade da redondeza.
Tomado por uma cor bege, areia, algo assim (como qualquer outro da vizinhança, independente do padrão), tudo indica que o ex-predinho verde não possui mais moradores transgressores como antigamente.
A tal comissão, penso eu, apenas concretizou o que a maioria clamava há tempos, acanhada por morar num imóvel que não seguia “a tendência” dos beges e fins. Até seu José, o porteiro mais antigo, concordou com minha indignação.
“Será que eles acham que com essa cor vai ficar mais valorizado?”, perguntei hoje de manhã.
“É, deve ser isso mesmo”, respondeu, conformado.