No mundo de Barba

Foto: Thomaz Vita Neto

São 19h da última quinta-feira. Uma churrasqueira com espetinhos fumegantes de linguiça e coração de frango solta nuvens de fumaça bem ao lado de um ponto de ônibus na rua Paschoal Decrescenzo, Vila Mayor, zona norte de Rio Preto. Duas mulheres conversam enquanto aguardam o coletivo, outras batem papo sentadas em torno da churrasqueira.

Do outro lado da calçada, Barba passa calmamente segurando um isqueiro, com seus chinelos brancos, calça de tergal e camiseta azul surrada. Parece que nada incomoda o velho Barba, apelido de Jonas dos Santos Gabarrão, 44 anos. Conhecido no bairro encravado na zona do meretrício e em meio ao tráfico de drogas, o homem que aparenta mais idade do que possui adotou a cobertura do ponto de ônibus da Paschoal Decrescenzo há sete meses como seu dormitório.

No telhado, além de seus poucos objetos pessoais, há um colchão que passa o dia coberto por uma lona. Alguns pedaços de madeira e entulho deixados por cima de todos os pertences garantem que nada saia do lugar até a hora de Barba escalar o ponto de ônibus para dormir. “Escolhi aqui depois de observar a calçada. A rua passa carro vice-versa. Observei bem assim”, tenta explicar, hesitante, sobre como foi parar no local.

Barba tem vários anos de vivência nas ruas, embora não saiba precisar. Há quem diga que são oito anos somente naquela região. “Morei na zona, Vale do Sol, Eldorado e Jardim Nazaré. Até debaixo de viaduto, na rodovia Raposo Tavares, perto de Cotia. Fui parar lá andando, conversando. Pode ver que o meu lado de conversar é diferente, é calmo.” Barba tem razão, mas, apesar da fala calma, as frases que saem de sua boca por vezes soam confusas.

No ponto de ônibus, ele costuma subir todos os dias por volta das 22h, quando para o movimento na rua. “Na hora de subir, a mente no lugar e sem bebida, porque eu não bebo não. Vou na calma, sem dar show, né. Tem vizinho aqui, tem ali, e tem ali”, fala, sobre sua performance. Passada a noite, todos os dias às 5h30 Barba faz o caminho inverso e pula da cobertura do ponto de ônibus. “As pessoas começam a pegar ônibus para trabalhar, a mulher senta no banco e é chato ficar ali”, explica ele, que conta com a ajuda da vizinhança para sobreviver. Comerciantes da redondeza colaboram com suas refeições e cedem banheiro. “A gente gosta muito dele. Todo mundo ajuda com roupas e alimentação”, relata a comerciante Ivone Marinelli, 46.

O motivo que levou Barba a morar na rua ninguém sabe explicar, nem o próprio. Um dos fregueses de um serve-festa do bairro conta que o conhece desde criança, quando ambos moravam em Ipiguá. Anos depois, o reencontrou perambulando pelas ruas da zona norte. “Esse rapaz era trabalhador. Foi servente de pedreiro e borracheiro”, revela, sobre o passado do velho Barba, o homem que preferiu não se identificar.

Questionado sobre a família, o morador do ponto de ônibus revela que não gosta de falar no assunto. Quem o conhece diz que ele recebe a visita de primos de vez em quando, e que sempre rejeita qualquer proposta de sair das ruas. A tentativa de diálogo com Barba prossegue. “O mundo gira. Hoje quem tem dinheiro arrota alto, quem não tem fica dependente ou cobrando a vida inteira. Comigo não… Quanto vale uma vida, quanto vale uma bala?”

Barba diz que nunca se casou, nem teve filhos. Não juntou riqueza. Quer mesmo a liberdade das ruas. Diz que às vezes perde o pouco que tem – suas coisas são levadas por quem tem menos que ele. Barba mostra um pouco de sua sabedoria. “O mundo é dos espertos? Em que parte o mundo é dos espertos? Uma vez um velho falou pra mim: Barba, malandragem dá futuro. Eu respondi: em que parte?.”

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