A queda, a vida

Quando pisou no buraco e viu que ia cair no asfalto deu um jeito de apoiar-se com o braço e a mão direita no chão. Já caída, sentiu a mão arder. Aquele ardidinho da infância, que tinha ficado lá atrás.

Se espatifar de bicicleta com o joelho no chão… que saudade, pensou. Corria logo até a farmácia rodeada de amigas suadas, esbaforidas, com as bochechas rosadas. Era conhecida do farmacêutico, e ele já sabia o que ela ia pedir… um belo curativo. Saía do estabelecimento com um tampão de gazes fechando o machucado, feliz. Aquele curativo era o que poderia haver de mais reconfortante depois da queda no asfalto, e ela tinha tornado daquilo um hábito.

Hoje carrega as cicatrizes das velhas quedas de bicicleta, e percebe que o joelho direito sempre foi o apoio de sua preferência, é o que tem mais estragos.

Adulta, já refeita da nova queda, olhou a palma mão. Estava só um pouco avermelhada. É… não seria o caso de recorrer a um curativo, concluiu.

Porém, a sensação que resultara do contato brusco da pele fina da mão com o asfalto não tinha passado. Ficou feliz por uns instantes. A palma da mão, ardendo, a tinha deixado mais viva.

Uma resposta para “A queda, a vida”

  1. Simone Lins Disse:

    Amiga, senti ao ler esse texto “Aquele ardidinho da infância, que tinha ficado lá atrás”, bj!

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